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Gastando o Latim

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Agora vai! O deputado Antônio Félix (PSD) apresentou na Assembleia Legislativa um projeto para substituir, no Brasão das Armas do Piauí (oficializado pela Lei nº 1.050, de 24 de julho de 1922), a expressão em latim Impavidum Ferient Ruinae pela frase "O desafio não nos amedronta", apresentada por ele como sua tradução mais conhecida em português.

Antônio Félix justifica que a expressão em latim também é traduzida como "As ruínas feri-lo-ão impávido", "Os corajosos não temem as desgraças" e "Os fortes jamais serão vencidos". O deputado alega que estes significados "não têm nada a ver com a história do Piauí." 

O parlamentar sustenta que "O desafio não nos amedronta" faz mais sentido, por lembrar fatos históricos como a Batalha do Jeninapo, travada em Campo Maior, em 13 de março de 1823, pela independência do Brasil. 

Para o deputado, "A substituição da legenda do Latim para o Português é coerente, mesmo porque a Língua oficial do Brasil é o Português.” E diz mais, na justificativa de seu projeto: “Os cidadãos comuns e mesmo os letrados  não são obrigados a falar ou entender o Latim, que é uma Língua morta - uma Língua que não mais possui falantes nativos".

A ignorância é audaciosa

Como diria o filósofo Mão Santa, a ignorância é audaciosa! Só mesmo a falta de conhecimento pode levar um parlamentar a apresentar uma proposta tão estapafúrdia como esta.

E só estou tratando do assunto, que considero irrelevante, porque sei que na Assembleia a esmagadora maioria dos projetos é aprovada sem a devida atenção dos deputados. E este pode ser mais um deles.

Ali, muitas propostas passam na base da camaradagem. O deputado Antônio Félix é boa praça, tem um bom diálogo com os colegas e não teria, assim, tanta dificuldade para emplacar sua proposta. Mas o projeto não tem o menor cabimento e a sua justificativa menos ainda.

O Latim vive!

Ao contrário do que imagina o deputado, o latim vive. Em janeiro de 2015, escrevi uma crônica para a revista Cidade Verde mostrando isso. Eu dizia:

 

“O Latim, que deu origem aos idiomas românicos, entre eles o Português, há séculos já foi dado como língua morta. Seu atestado de óbito traz como causa mortis: não é idioma oficial de nenhum país, além do Vaticano, e não tem falantes nativos.

Data venia, há controvérsias quanto à morte do Latim. Volta e meia, estamos com uma palavra ou uma expressão latina na ponta da língua, ou nos deparamos com uma delas indicando que a língua mater está viva.

 

Por necessidade ou esnobismo, alguém está sempre fazendo uso dela. 

Outro dia, o vice-presidente Michel Temer, cogito que com a intenção de quebrar o status quo reinante em Brasília, mandou uma carta para a presidente Dilma Rousseff.

E como ele começou a sua missiva? Gastando o seu precioso latim, que passo a transcrever ipsis litteris"Verba volant, scripta manent". 

Como tinha dúvida (creio que ele tinha mesmo era certeza!) de que a presidente entenderia, Temer traduziu, em seguida: (As palavras voam, os escritos permanecem).

E, após desfiar seu rosário de queixas, apontava a condição sine qua non para viver em lua de mel com a presidente: deixar de ser um vice decorativo.

A priori, com o seu gesto sui generis, se não contribuiu para o aperfeiçoamento das relações institucionais republicanas, inspirou humoristas e compositores de músicas de dor de cotovelo pelo país afora.”

E eu continuava:

“Bem, mas não é da epístola do vice que quero falar. É do Latim. Como o Latim é uma língua morta, se está não apenas na escrita do vice-presidente, mas também nas peças dos advogados, nas sentenças judiciais, nas falas barrocas dos ministros do Supremo mostradas pela TV ou nos documentos e nas missas do Vaticano?

É, em outra ponta, o Latim virou uma febre entre os adolescentes há pouco tempo através da série Harry Potter, fenômeno da mídia que popularizou a língua numa escala poucas vezes vistas.  Accio! (Eu invoco!)

“Como o Latim morreu, se ele está em nosso curriculum vitae?

Se ele está geograficamente também aqui bem pertinho de nós, no coração de Teresina? Não é ele que vive imponente no nome de nosso Cine Rex (Rei), embora o cinema já tenha sido fechado há muito tempo?

E as Reginas (rainhas, em português), genuinamente latinas, como nossa senadora e também como minha esposa e tantas outras que brilham ou vivem anonimamente em nossa cidade? E as Lunas, que em nosso idioma são Luas?

Eu precisaria de um Vade mecum para escrever este texto que faço assim de memória, lembrando, por fim, que a ciência não abriu mão do Latim.

E, nestes tempos de infestação de dengue, chikungunya e zika, veja o fim da picada: o mosquito transmissor dessas doenças tem o nome científico de  Aedes aegypit.

Como se vê, o Latim vive! Até o mosquito da dengue mostra isso! Salute!”

Só o deputado Antônio Félix não enxerga!

E para concluir: o deputado presidiu a Fundação Humberto Reis, a Fundalegis, autorizando a oferta e realização de cursos de pós-graduação latu sensu.

Não bastasse, ele carrega o latim em seu próprio nome: Felix.

Então, já que acha que o latim está tão em desuso, que aproveite e mude também o seu nome para Antônio Feliz!