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Francelino Pereira, um mineiro piauiense

Foto: Jane de Araújo/Agência Senado

Francelino na tribuna do Senado

A frase foi popularizada no Brasil pelo roqueiro Renato Russo, através de sua canção “Que país é esse?”, mas ela entrou nos meios políticos pela boca de um piauiense: Francelino Pereira, nascido em Angical, em 2 de julho de 1921. Antes, era conhecida apenas no campo da literatura, nos textos de José de Alencar e Machado de Assis.

A trajetória de Francelino Pereira dos Santos, mostrada no livro biográfico O Chão de Minas, publicado em Belo Horizonte, em 2009, é uma saga inspiradora, como definem seus autores, Kao Martins, Paulinho Assunção e Sebastião Martins.

De Angical para o Brasil

Ele saiu da pequenina Angical do Piauí, muito jovem, para alcançar os mais elevados cargos eletivos da República, remando contra a maré do pessimismo. Com engenho e arte, fez-se uma rara exceção para a regra segundo a qual a política no Brasil e especialmente em Minas Gerais, onde fez toda a sua carreira, constituía espaço praticamente vedado aos que não pertencessem a famílias tradicionais, com sólidas raízes ou grande fortuna.

Em mais de meio século de vida pública, iniciada em 1951, com sua eleição como vereador de Belo Horizonte, passando pela Câmara Federal e pelo Governo de Minas, até o mandato de senador, conquistado nas urnas em 1994, Francelino Pereira metamorfoseou-se.

Virou um político mineiro,genuinamente mineiro, da expressão de um Milton Campos, um Pedro Aleixo ou um Tancredo Neves. Não esqueceu, porém, o seu berço natal. Enquanto a idade e a saúde lhe permitiram, estava frequentemente de volta a Angical, quase sempre anonimamente.

A história da frase

Como a sua célebre frase ganhou o mundo da política? Foi assim: em 1976, o Brasil vivia em pleno regime militar e discutia-se uma promessa do presidente da República, general Ernesto Geisel, de iniciar a transição.

Pela sua proposta, o sistema político seria aberto gradualmente e os governadores seriam eleitos pelo voto direto, dali a dois anos.

Como a oposição duvidou da promessa, Francelino Pereira, então presidente nacional da Arena, o partido do governo, lançou a pergunta: “Que país é este?”.

A indagação era formulada no contexto da crítica dos que punham em dúvida o propósito do presidente de levar adiante o processo de distensão e abertura política.

A frase completa, com todas as letras, era esta: “Que país é este em que o povo não acredita no calendário eleitoral estabelecido pelo próprio presidente?”. A única resposta plausível, naquele momento, seria esta: um país sob ditadura.

Foto: FGV

Petrônio Portella, presidente Figueiredo, Francelino e Marco Maciel: líderes nacionais da Arena

Deu rock

Em meio à repercussão da frase, Renato Russo compôs em 1978 a música “Que país é esse?”, gravada pela banda Legião Urbana em 1987, quando o regime militar já havia caído e o Brasil era governado por José Sarney.

Em 1980, o poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna publicou “Que país é este?”, longo poema no qual retomava ironicamente a pergunta de Francelino. O poeta a inseria, contudo, no curso da história brasileira desde a Colonização.

Publicado inicialmente no Jornal do Brasil, o mais influente da época, o poema ressoou com força de um canto a outro do país, como palavras de resistência ao regime. Também foi reproduzido em outras publicações e até mesmo em pôsteres.

Em entrevista recente, o poeta afirmou que, na verdade, não causaria espanto se a pergunta formulada por Francelino tivesse sido lançada aos ares pelo próprio Pedro Álvares Cabral, ao avistar as terras de Santa Cruz.

 

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Outra frase

Como presidente nacional do partido do governo, Francelino Pereira foi autor, ainda, de outra frase que marcou a crônica política de seu tempo: “A Arena é o maior partido do Ocidente”.

A exclusão era escrupulosa, como observou o jornalista Otávio Frias Filho, pois remetia aos partidos políticos do Oriente, tão Arena quanto a Arena, mas asiaticamente maiores.

A Arena se organizou em todos os municípios do país, sendo amplamente majoritária nas casas legislativas. Em milhares de municípios e em dezenas de estados, abrigava os governistas em sublegendas. Eram poucos os políticos que se arriscavam a militar no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), o partido da oposição.

Trago estas anotações a propósito do silêncio, ocorrido ontem, em Belo Horizonte, desse grande e honrado piauiense que se projetou com destaque na política nacional, onde pontificou sem mácula e angariou espaço pela sua inteligência, sua vasta cultura, sua lealdade e, sobretudo, pela sua simplicidade.