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Olímpio Castro, símbolo de uma época

Imagens: acervo da família

Professor Olímpio Castro 

Ele era, antes de tudo, um destemido. Um homem simples que enfrentou de peito aberto três governadores no período do regime militar. Foi perseguido e arbitrariamente demitido do emprego de professor, do qual tirava o sustento da família. Também foi processado, mas não abriu mão de seus ideais.

Refiro-me ao professor Olímpio Castro de Oliveira, um educador de peso e medida e também uma das principais lideranças do magistério estadual. Ele morreu na quinta-feira passada, dia 8, em Teresina, aos 93 anos, por complicações decorrentes de uma pneumonia.

Olímpio Castro foi  diretor do Liceu Piauiense por 8 anos, na década de 70, e exerceu mandatos de vereador em Campo Maior, nos anos 50, e em Teresina, nos anos 80.

A luta pelo magistério

Foi o redator do decreto que criou o salário móvel e coautor do Estatuto do Magistério, duas grandes conquistas dos professores públicos no primeiro governo Alberto Silva.

É de sua autoria a lei que instituiu a eleição direta para diretores de escolas municipais em Teresina.

Há anos estava aposentado, vivendo para a família, mas de vez em quando seu espírito irrequieto ditava  um artigo sobre o tema de sua paixão – a educação – ou política e que ele publicava na imprensa local.

Sua caminhada em livro

Em 2005, lançou um livro, Vestígios da minha caminhada – uma coletânea de artigos escritos por ele durante 50 anos, a partir de 1955. O prefácio é do professor Fonseca Neto, da Universidade Federal do Piauí.

Ele dedica a obra à memória de Petrônio Portella, Paulo Ferraz e Wall Ferraz, “três políticos oriundos dos quadros da antiga UDN com relevantes serviços prestados a Teresina, ao Piauí e ao Brasil”.

Na descrição dos perfis dos três políticos, Olímpio justificava ainda a sua homenagem: “Corretos no exercício da função pública, eles também se caracterizaram pela lealdade aos amigos, souberam dignificar os mandatos recebidos e nunca se envolveram em escândalos como os que estão apequenando o Congresso Nacional no governo do presidente Lula. É de políticos como esses três piauienses que o Brasil está precisando para sair do atoleiro.”

A capa do livro do professor Olímpio

Quase padre

Olímpio Castro nasceu no povoado Goiabeira, município de Pedro II. Fez os primeiros estudos em sua terra natal e mudou-se depois para Fortaleza. Ali fez o preparatório para ingresso no Seminário Menor de Jundiaí, São Paulo, onde permaneceu até descobrir que o sacerdócio não era a sua vocação.

Retornou para o Piauí e fixou residência em Campo Maior, onde conhece Alexandrina Leite, a dona Lili, com quem se casou e teve cinco filhos: Maria do Rosário (advogada), José Olímpio (jornalista), Valquíria (empresária), Valdira (in memoriam) e Márcia (servidora pública).

Iniciou suas atividades educacionais e políticas em Campo Maior, onde se destacou como educador e vereador comprometido com as causas sociais. Foi professor do tradicional Ginásio Santo Antônio, fundado e dirigido na cidade pelo padre Mateus Rufino.

Foi também secretário do Centro de Estudos Piauienses, fundado em 1953 pelo professor Raimundo Nonato Monteiro de Santana. No ano passado, foi homenageado pela Câmara Municipal de Campo Maior com o título de Cidadão do Município. Impossibilitado de comparecer à sessão, foi representado pelos seus filhos.

Homenagem em Campo Maior com o título de Cidadão do Município, entregue aos seus filhos

As lutas na capital

Mudou-se para Teresina em 1962. Na capital, assumiu papel de vanguarda no movimento dos professores. Em pleno calor do regime militar, comandou duas greves vitoriosas do magistério.

Em 64, no governo Petrônio Portella, ele liderou a primeira greve do magistério no Piauí. Em 1968, no governo Helvídio Nunes, comandou outro movimento grevista que resultou em aumento de vencimento para todo o funcionalismo estadual.

Apontado como comunista, não se intimidou e, mais tarde, ao lado de outros idealistas, fundou em 68 a Associação dos Professores do Ensino Médio Oficial do Estado do Piauí (APEMOP), depois Apep, hoje Sinte. Presidiu a entidade em duas ocasiões.

Educador e jornalista

Em sua longa carreira de educador, exerceu o magistério como professor de latim e português no Ginásio Santo Antônio, em Campo Maior; Colégio Osvaldo da Costa e Silva, em Floriano; e Ginásio Leão XIII e Colégio Diocesano, em Teresina. Foi professor e também diretor da Escola Normal Antonino Freire e do Liceu Piauiense.

Exerceu também intensa atividade na imprensa piauiense, sendo colaborador regular dos seguintes jornais, a partir dos anos 50: A Cidade, A Diretriz, O Dia, Voz do Povo, Voz do Piauí, Folha da Manhã, Jornal do Comércio, Jornal do Piauí, O Estado, Diário do Povo e Jornal do Professor.

Demissão e processo

Em 1980, ao lado dos professores Clementino Siqueira, Eurivan Ribeiro, Francisco Soares Santos, Raimundo Nonato Galvão e outros, apoiou incondicionalmente as lutas do magistério estadual para manter conquistas que estavam sendo negadas pelo governo Lucídio Portella.

Desta vez, pagou caro. Foi afastado das salas de aula no Liceu Piauiense e processado pelo governo. Com a imprensa sob censura, denunciou os abusos do poder através de panfletos e boletins.

Expulso da sala de aula, subiu aos palanques e foi eleito vereador de Teresina em 1982, pelo PMDB. Suas bandeiras de luta: a valorização do magistério e a redemocratização do país.

A homenagem do Sinte-PI

Olímpio por Wall

O professor Wall Ferraz, seu companheiro de jornadas e que o nomeou diretor do Liceu quando foi secretário de Educação, no primeiro Governo Alberto Silva, deixou um depoimento sobre ele: “O papel mais importante de Olímpio Castro foi como líder de classe.”

Nesta condição, segundo Wall, Olímpio redigiu com José Torquato o decreto do salário móvel e teve participação decisiva na elaboração do Estatuto do Magistério (1974) e em outras conquistas da categoria.

Era o primeiro governo Alberto Silva, que abraçou as lutas do professor público. O seu sucessor, Dirceu Arcoverde, deu continuidade à política governamental de valorização do magistério.

Já no governo Lucídio Portella, a situação mudou. “Foi perseguido e processado, mas não desertou da luta”, escreveu Wall, que em seu segundo mandato de prefeito o indicou como seu líder na Câmara Municipal de Teresina.

Nota de Pesar

O Governo do Estado publicou ontem Nota de Pesar pelo falecimento do professor Olímpio Castro:

"O Governo do Estado externa o mais profundo pesar pelo falecimento do professor Olímpio Castro, ocorrido no dia 8 de março. Ele foi presidente da Associação dos Professores do Piauí (APEP), com forte atuação na história do Sindicato dos Trabalhadores da Educação (SINTE).

Por sua história e envolvimento com a educação no Piauí, o Governo do Estado se solidariza com toda a classe e neste momento de dor e luto, se junta à família, desejando força e conforto para que todos superem esta grande perda."

Um lacerdista da gema

Quando conheci o professor Olímpio, na década de 80, através de seu filho, José Olímpio Leite de Castro, meu colega e presidente do Sindicato dos Jornalistas do Piauí até o ano passado, ele era político.

Nossas conversas em sua residência, ali na Rua 24 de Janeiro, no Centro, eram basicamente sobre literatura, jornalismo e política. Era um apaixonado por Carlos Lacerda, que incendiou a velha UDN de sua juventude.

O professor Olímpio Castro viverá em minhas lembranças como um homem aguerrido, entusiasmado, decente, devotado à educação, de grande espírito público, coerente e, sobretudo, corajoso. É um símbolo de uma época. Uma época das grandes lutas do magistério piauiense.

 

Olímpio com Dona Lili e uma das filhas do casal