Cidadeverde.com

Enfim, juntos novamente!

Foto: Arquivo

Professor R. N. Monteiro de Santana

 

Na celebração de seus 80 anos, com a família e os amigos, o professor Raimundo Nonato Monteiro de Santana escreveu, cheio de vida, no convite: “Ao lado da Magui quase não percebi!”.

Era a reiterada declaração de amor que ele fazia para aquela que, a vida inteira, fora sua musa e dedicada companheira, Magnólia, uma Paranaguá da gema e a quem ele carinhosa e simplesmente chamava de Magui.

Foi a última grande festa de Santana e Magnólia juntos, com os filhos, os netos, demais parentes e os amigos. Ela viria a falecer algum tempo depois. E ele procurou resistir à sua ausência, até ser sequestrado pelo Mal de Alzheimer, no dizer do cronista Cineas Santos, um de seus amigos mais próximos.

Depois de anos lutando contra a terrível doença e, apesar dos cuidados da filha Ângela, médica, e de seu esposo, que se desdobraram em esforços e em afetos para recuperar a sua saúde e amenizar o seu sofrimento, o professor Santana recebeu o descanso eterno na sexta-feira, dia 15.

Uma mente brilhante

Com o seu silêncio, o Piauí perdeu uma das mais fulgurantes inteligências do século 20. Ele se despediu do mundo dos mortais aos 92 anos, em casa.

Mestre Santana, como o chamávamos, foi político, professor e escritor. Ele nasceu em Campo Maior, em 27 de fevereiro de 1926 e fez-se uma figura marcante no cenário cultural brasileiro.

Bacharelou-se em Direito pela Faculdade do Ceará (1949). Diplomado, também, pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros, em Economia Política e Sociologia.

Professor catedrático de Economia da Universidade Federal do Piauí e da Universidade de Brasília. Foi professor ainda da Escola Superior de Guerra e de universidades norte-americanas.

Da política para a pesquisa 

Foi prefeito de Campo Maior, no período de 1951 a 1955. Elegeu-se com apenas 24 anos, depois de uma luta hercúlea contra uma poderosa e influente oligarquia comandada pelo senador Sigefredo Pacheco.

Após o cumprimento do mandato, apesar do sucesso de sua administração, ainda hoje lembrada como a melhor que Campo Maior já teve, mudou-se para Teresina, desencantado com a política.

Na capital, abraçou o magistério, como professor de escolas particulares, do velho Liceu Piauiense e de faculdades, sendo depois um dos fundadores da Universidade Federal do Piauí.

A sua inquietação intelectual era com os problemas sociais e econômicos. Na opinião do professor Paulo Nunes, outro expoente de sua geração, Santana tinha suas preocupações voltadas para a realidade brasileira, como um Euclides da Cunha.

 

As funções do QUE

A propósito, o mestre Santana me contou um dia, em uma das frequentes visitas que me fazia na redação do jornal Diário do Povo: quando chegou a Teresina, em meados dos anos 50, um grupo de intelectuais composto de amigos seus fazia uma acalorada discussão de alto nível sobre as 27 funções da palavra QUE na língua portuguesa.

Solicitado a entrar no debate e a opinar sobre o tema, ele dirigiu-se ao grupo:

- Vocês são todos brilhantes e deveriam gastar suas energias era com a elaboração de um diagnóstico sobre os problemas do Piauí e a busca de solução para eles. Desse tema aí, outros já se ocuparam. E só o que temos é livro de gramática tratando dele.

"Pai do Planejamento" 

De fato, por essa época e pelos anos seguintes, Santana entregou-se de corpo e alma à pesquisa. Foi um dos fundadores e diretor da Codese, a Comissão de Desenvolvimento do Estado, criada em 1956 – o embrião da futura Secretaria Estadual de Planejamento.

Pelos estudos que realizou e coordenou, é considerado o ‘Pai do Planejamento do Piauí’.

Era membro da Academia Piauiense de Letras, onde ocupava desde 1967 a cadeira 32. Também presidiu a instituição, de 2000 a 2001.

Bibliografia

É longa, vasta e intensa a contribuição intelectual do professor Santana ao Piauí, nos mais diversos campos do saber, e não apenas no da economia. Pensava e agia. Com seu esforço pessoal, editou mais de 100 livros de autores piauienses.

Ele fundou, ainda jovem, o Centro de Estudos Piauienses (1957) e o Movimento de Renovação Cultural do Piauí (1960). Mais recentemente, criou a Fundação de Apoio Cultural do Piauí (Fundapi).

De sua autoria, publicou, entre outros, os livros O Desenvolvimento Econômico Nacional na Teoria Econômica Geral, tese, 1959; Aspectos de Uma Ideologia para o Desenvolvimento; Introdução à Problemática da Economia Piauiense, 1957;  A Evolução Histórica da Economia do Piauí, 1964; Vale do Longá e Perspectiva  Histórica do Piauí, 1965: Piauí: Formação – Desenvolvimento – Perspectivas, 1995, e Apontamentos para a história cultural do Piauí, 2003.

Biblioteca

Em fevereiro deste ano, foi assinado convênio entre a Universidade Federal do Piauí (UFPI), a Academia Piauiense de Letras (APL) e a Fundação Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais do Piauí (Fundação Cepro) para a execução do projeto “Biblioteca Piauiense Professor Raimundo Nonato Monteiro de Santana”.

A biblioteca vai permitir acesso a obras sobre a realidade socioeconômica, política e cultural do estado, além de resgatar publicações esgotadas e viabilizar a edição de obras nunca publicadas.

Ela será composta por quatro séries: Ensaios Pioneiros, Estudos Contemporâneos, Teses e Dissertações, bem como a Obra Completa do Professor Santana.

Cidade Verde: Reprodução

 

Um cidadão

Mestre Santana foi, antes de tudo, um cidadão – elegante, fino, simples, ético e, sobretudo, bom –, sempre a instigar os de sua geração a travar o bom combate e a incentivar os mais jovens. Um educador pleno.

Era dotado também de fina ironia. Uma vez, na sala de aula, na UnB, um aluno, com a irreverência dos jovens, indagou, em tom de desdém:

- Professor, o que é que o seu Piauí tem?

- Muita coisa, meu filho, inclusive professor para ensinar a vocês por aqui.

Outra vez, em embarcar para Teresina, encontrou-se casualmente no aeroporto de Brasília com o então prefeito de Campo Maior, Raimundo Bona, o Carbureto, homem de poucas letras e limitados recursos oratórios, mas uma figura muito popular em sua cidade à época.

O prefeito puxou conversa com o professor Santana:

- Professor, dizem em Campo Maior que até hoje a cidade só teve dois prefeitos que foram grandes oradores.

- E quais foram, prefeito?

- O senhor e eu!

Ele gostou da piada!

 

O professor Santana cumpriu, verdadeira e plenamente, a sua missão. E deixou para se despedir do mundo dos mortais depois do festejo de Santo Antônio, o padroeiro de sua amada Campo Maior, para não estragar a festa.

Que siga em paz e na eternidade receba o merecido descanso dos justos!

Reencontro

Na literatura brasileira, é muito conhecido e admirado o soneto “Hão de chorar por ela os cinamomos”, do poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens, que expressa a dor da separação, por morte, de um casal que se amava intensamente.

O terceto final sintetiza todo o sentimento do poema:


(...) Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"

 

Ao entardecer de sexta-feira passada, dia 15, o corpo inerte do mestre Santana baixou à sepultura, no mesmo jazigo onde repousam os restos mortais de sua amada.

Sem dúvida, o verso final de poema de Guimaraens, que ele tanto conhecia, tocou profundamente a alma do professor Santana, após a partida de sua mulher, 57 anos depois de casados.

Fico imaginando como “a vida foi pequena para tanto amor”! E que o mestre Santana e sua Magui, vencendo a separação temporária destes 12 anos, estão, enfim, novamente juntos para viver espiritualmente, na eternidade, todo o seu belo e infinito amor!

Assim seja!