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Oligarquia nunca é demais!

 

Quando me iniciei no jornalismo político, em 1986, o pecado maior da política piauiense era a oligarquia. Ela era representada, naquele tempo, por dois primos – Hugo Napoleão e Freitas Neto, herdeiros do esquema político do senador Petrônio Portella.

Então, bater pesado na oligarquia tornou-se a principal bandeira da oposição, naquela e em outras campanhas eleitorais do Piauí. Isso rendia voto.

Lembro que nas eleições de 1998, o apelo eleitoral contra a oligarquia ainda era muito forte.

No segundo turno da eleição, o prefeito de Teresina, Firmino Filho, uma liderança emergente, aderiu ao governador Mão Santa (PMDB), que concorria com o senador Hugo Napoleão (PFL). O tucano lançou um slogan que incendiou a campanha:

- Oligarquia nunca mais!

O exemplo que vem de cima

Pois bem! Mão Santa foi reeleito, teve o seu mandato esbulhado na Justiça Eleitoral, em 2001, elegeu-se senador no pleito seguinte e a vida continuou.

O PT, já quase cansado de guerra, chegou enfim ao poder em 2003. Na sua pregação histórica, estavam a defesa da ética na política e o combate sem trégua ao nepotismo.

Com o exemplo vindo de cima, nos três mandatos do governador Wellington Dias nunca se viu tanto parente na política.

Uma nova leva

As convenções encerradas ontem despejaram mais uma leva de parentes na política piauiense. Eles estão tanto no palanque do governo quanto nos palanques da oposição.

O governador Wellington Dias manteve sua esposa Rejane Dias na disputa pela reeleição de deputada federal pelo PT.

O senador Ciro Nogueira, seu principal aliado e que já tem a esposa Iracema Portella como deputada federal, escolheu a própria mãe para a sua suplência.

A vice-governadora Margarete Coelho será candidata a deputada federal e o cunhado Hélio Isaías, como ela também do Progressistas, disputa a reeleição de deputado estadual.

O presidente regional do PSD, deputado federal Julio César, vai novamente para a campanha com o filho Georgiano Neto concorrendo à reeleição de deputado estadual.

O presidente estadual do PDT, Flávio Nogueira, concorrerá outra vez à Câmara Federal e seu filho, Flávio Júnior, disputará reeleição de deputado estadual.

Já o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Themístocles Filho (MDB), sai candidato à reeleição e lança o filho, Marco Aurélio, à Câmara Federal.

A deputada estadual Flora Izabel concorre à reeleição pelo PT e seu primo Jesus Rodrigues, ex-deputado federal, sai candidato a senador pelo PSol. 

Um dos candidatos a suplente do senador Ciro Nogueira é o ex-prefeito de Picos, Gil Paraibano, que tem uma sobrinha concorrendo à Assembleia com o apoio dele, a ex-deputada Belê Medeiros.

Tem mais!

Na oposição, o ex-governador Wilson Martins (PSB) concorrerá novamente ao Senado com um irmão, Rubem, disputando a reeleição de deputado estadual e um sobrinho, Rodrigo, tentando voltar à Câmara Federal.

Os ventos do Norte sopraram a delegada de polícia Cassandra Moraes Souza, filha do prefeito de Parnaíba, Mão Santa (SDD), como candidata a vice-governadora na chapa encabeçada pelo tucano Luciano Nunes.

Ainda na oposição, o candidato a governador Dr. Pessoa (SDD) foi salvo pelo gongo, na última hora.

O filho dele, João Pessoa, o Pessoinha, era candidato a deputado estadual pelo PMN, na vaga do pai, mas foi rifado no último momento pelos aliados, temendo a força eleitoral do pai.

A candidata a vice-governadora na chapa do Dr. Pessoa, Vanessa Tapety, é sobrinha do ex-deputado Mauro Tapety, que busca um novo mandato pelo MDB.Ela é filiada ao PTC.

Voo alto

O ex-prefeito de Novo Oriente, Marcos Vinícius, estreia na política estadual como candidato a senador também pelo PTC, no palanque do Dr. Pessoa, e a mulher dele concorre à Câmara Federal.

Trata-se da doutora Marina, filha da ex-prefeita do município de Francisco Santos, por cinco mandatos, Carleusa Santos, e do ex-deputado estadual Isaac Batista, ex-prefeito de Santo Antônio de Lisboa, já falecido.

O ex-deputado e suplente de deputado Henrique Rebelo tenta voltar à Assembleia pelo PTC. Ele é irmão do candidato a governador pelo PSC, Valter Alencar.

Ah! O ex-vereador Antônio José Lira, irmão do deputado federal Átila Lira (PSB), candidato à reeleição, discrepou da família e disputa uma cadeira de senador no palanque do candidato a governador pelo PSL, Fábio Sérvio.  

E agora ?

Por fim, o prefeito Firmino Filho, autor da célebre frase de 1998 (“Oligarquia nunca mais!) lançou a mulher, Lucy, à Assembleia Legislativa, onde o sobrinho Firmino Paulo já tem uma cadeira e está na luta para mantê-la.

Então, diante do que se vê nestas eleições, só resta pedir desculpas públicas à velha e comedida oligarquia do Piauí e atualizar a máxima do prefeito de Teresina.

Ela ficaria mais adequada reescrita assim: Oligarquia nunca é demais!