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Polícia só pega ‘piabas’ em megaoperação

Foto: Wilson Filho/Cidadeverde.com

Delegados falam sobre 'Operação Natureza' em coletiva

 

O Grupo de Repressão ao Crime Organizado (Greco) deflagrou na manhã ontem a ‘Operação Natureza’, para investigar fraude e corrupção em licenciamento ambiental no Piauí.

A polícia caiu em campo para cumprir dez mandados de busca e apreensão e sete de prisões temporárias expedidos pela justiça. Os mandados foram cumpridos em Teresina, Regeneração, Guadalupe e Brasília. 

São investigados na operação servidores da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semar) e empresários. O superintendente do Meio Ambiente, Carlos Moura Fé, é um dos presos, juntamente com analistas ambientais da Semar. 

O empresário Tiago Junqueira, dono da Fazenda Chapada Grande, em Regeneração, também foi preso. 

Corrupção

De acordo com nota divulgada pela Secretaria de Segurança, as investigações da operação começaram em 2015, por meio de uma denúncia anônima feita à Polícia Federal e, posteriormente encaminhada ao Greco, visando a apuração de crimes de corrupção ativa, corrupção passiva, associação criminosa e advocacia administrativa, além de crimes ambientais. 

Segundo a Polícia Civil, o prejuízo chega a mais de R$ 3 milhões e envolve supostamente desvio de verbas públicas, o uso irregular de bens públicos e emissão de licenças ambientais de forma irregular, dentre outros.

Propina

Em entrevista coletiva concedida no final da manhã, os delegados Riedel Batista (geral), Rejane Piauilino (Greco) e Willame Morais (coordenador do Greco) garantiram que presos da operação recebiam propina para expedir licença ambiental no estado.

Na coletiva, os delegados justificaram que não podiam contar detalhes sobre as supostas fraudes e corrupção em licenciamento ambiental, já que a ação ainda está sob sigilo, por determinação da juíza da 4ª Vara Criminal.

A operação contou com o apoio de órgãos fiscalizadores, como o Tribunal de Contas do Estado, o Ministério Público do Piauí e de instituições financeiras.

Surpresa

Há que se esperar, naturalmente, a conclusão das investigações e a versão dos acusados para se fazer juízo do caso. Mas a operação surpreende. O superintendente da Semar, Moura Fé, é um técnico que desfruta de boa reputação profissional. Ele é servidor do Ibama e já serviu a vários governos.

O empresário Tiago Juqueira é um dos poucos que vieram de fora para investir no Piauí e aqui ficaram. Muitos outros deram no pé. Há mais de dez anos, ele implantou no município de Regeneração um megaprojeto de plantação de eucalipto, a Fazenda Chapada Grande.

O projeto, assentado em uma área superior a 20 mil hectares, conta com financiamento do Banco do Nordeste e incentivos fiscais e impulsionou o desenvolvimento do comércio de Regeneração e da região.

Foto: Divulgação

Vista da Fazenda Chapada Grande, em Regeneração

Danos ambientais

Só tem recebido elogios, menos dos ambientalistas, claro. Eles denunciam que o projeto de plantio de eucaliptos provoca danos ambientais gravíssimos.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tem uma visão diferente, baseada em estudos científicos. Ela publica em seu site oficial que, “contrariando o título atribuído ao eucalipto de "desertos verdes", plantios comerciais dessa árvore (eucalipto) podem contribuir com a conservação da biodiversidade e exercer importante papel de indutor da recomposição de florestas nativas.”

Conforme ainda a Embrapa, “estudos mostram que no interior dos eucaliptais é possível encontrar uma diversidade considerável de espécies de árvores. Se manejadas corretamente, essas áreas podem se transformar em novos fragmentos florestais, destinados, por exemplo, à formação de Reserva Legal ou de Áreas de Preservação Permanente.”

A necessidade de atender a demandas legais e de sustentabilidade tem levado principalmente as empresas do setor florestal a investir em medidas para recomposição da vegetação nativa em áreas selecionadas da propriedade, anteriormente ocupadas por talhões de eucalipto.

Terra produtiva

O fato, porém, é que o empresário Tiago Junqueira transformou uma imensa área improdutiva do Médio Parnaíba em terra de grande produtividade.

Todos os anos, a fazenda realiza um Dia de Campo que reúne em torno de 500 produtores do agronegócio, muitos deles vindos de outros Estados.

A megaoperação  surpreende, também, porque a polícia, ao jogar a tarrafa, só recolhe piabas. Os peixes graúdos, mandantes e beneficiários do esquema – se ele de fato existiu – não foram fisgados. Como uma investigação que se estendeu por tanto tempo não chegou a eles?

Ou seria possível existir um esquema de corrupção de tal envergadura, dentro do governo, operando por tanto tempo, sem que os escalões do andar de cima soubessem?