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Nos tempos da ditadura

Fotos: Cidadeverde.com

Cineas Santos recebe título de "Professor Honoris Causa" da Ufpi

 

Em 1971, o reitor Helcio Ulhoa iniciava a instalação física do Campus da Ininga, com um projeto arquitetônico inadequado para as altas temperaturas de Teresina. Eram construções rústicas, que mais se assemelhavam a galpões de granja. Cobertos de telha de amianto, forro de gesso, sem ventilação adequada. Salas de aulas insuportáveis.

A área em que se implantava a Universidade Federal do Piauí resultava de um agrupamento de fazendas desativadas. Fora adquirida pelo Governo do Estado justamente para instalação do campus universitário.

A Avenida Nossa Senhora de Fátima acabava em frente à praça da igreja. Daí para frente, tudo era mata virgem, com umas olarias no caminho. Chegava-se à universidade por uma estradinha de terra e não havia ônibus regulares.

Em 1972, o Curso de Direito foi transferido para o nascente Campus da Ininga. As coisas se complicaram para os estudantes que frequentavam as aulas na antiga Faculdade de Direito, também chamada de “Velha Salamanca”, localizada no Centro. Há muitos anos, em seu antigo prédio funciona a Biblioteca Estadual Cromwell Carvalho.

477 nele!

À época, a também nascente TV Clube criou um programa cultural – TP Estúdio – apresentado pelo dramaturgo Tarciso Prado. Havia no programa um quadro denominado “Na corda bamba”, comandando pelo jornalista Deusdeth Nunes, o Garrincha.

Um dia, ele convidou um dos estudantes do Curso de Direito, versado em literatura, para ir lá falar sobre poesia. Lá pelas tantas, Garrincha pergunta ao acadêmico de Direito o que ele achava da transferência do curso de Direito para a Ininga.

Medindo as palavras, o entrevistado afirmou que a mudança era intempestiva, uma vez que a infraestrutura do campus ainda era precária. Aí citou a falta de transporte, o forno das salas de aula, a precariedade da cantina, os insetos que infestavam as aulas...

A repercussão da entrevista foi mínima. Dois dias depois, no entanto, o Conselho Universitário se reunia para punir o aluno, com base no Decreto 477, o AI-5 dos estudantes. Se condenado, era expulsão certa, sem direito a se matricular mais em nenhuma universidade do país.

O acadêmico de Direito soube por acaso, através de um colega, da reunião de emergência do Conselho Universitário e quase morre do susto: “Que julgamento foi esse, que eu, o acusado, não fui comunicado nem tive o direito de me defender?”

Arbítrio e covardia

Soube mais: só se livrou de ser enquadrado no famigerado 477 por falta de provas. É que a TV Clube, começando a funcionar também em condições precárias, não tinha a fita com a gravação da entrevista. Ele apurou depois que nenhum de seus professores abriu a boca para lhe defender na reunião do Conselho Universitário.

Curiosamente, a voz que se levantou em sua defensa foi a do professor e poeta Cassy Távora, que não era seu professor nem seu amigo. Com muita coragem, ele argumentou: começaria muito mal a sua história uma universidade que se interessava em punir um aluno simplesmente por ele expressar a sua opinião publicamente.

Esta história foi contada ontem à tarde por esse ex-aluno, o hoje professor, editor e cronista Cineas Santos, ao receber do Conselho Universitário da Ufpi, sob a presidência do reitor Arimatéia Dantas, o título de “Professor Honoris Causa”, proposto pela vice-reitora Nadir Nogueira  e aprovado por unanimidade.

Cineas Santos contou o fato ao agradecer a homenagem, explicando que a revelação tinha o objetivo de abrir os olhos dos que hoje clamam pela volta da ditadura, sem conhecer os atos que ela é capaz de praticar contra as melhores intenções.

 

Cineas Santos agradece homenagem da Ufpi