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Do Porenquanto a cabeça do Congresso

Fotos: Arquivo pessoal

Deputado Heráclito Fortes, em Brasília

 

Ele estreou na política em 1978. Contava 28 anos de idade e subia ao palanque da oposição, no Piauí, cheio de ideias e sonhos, para disputar seu primeiro mandato de deputado federal. Perdeu, mas, andando com os próprios pés, como sempre o fez ao longo de sua carreira política, aprendeu o caminho das pedras e se elegeu para a Câmara Federal nas eleições seguintes, pelo PMDB.

Desde então, é o parlamentar piauiense de maior projeção, por mais tempo, dentro do Congresso Nacional.

Ele se destaca, sobretudo, pela sua atuação nos bastidores, pela sua capacidade de articulação e pelo livre trânsito nas cúpulas partidárias. Sabe ouvir e sabe falar. E também calar.

Cabeça do Congresso

Agora mesmo, acaba de sair a nova lista dos 100 cabeças do Congresso, com a relação dos parlamentares mais influentes. Ele, o deputado federal Heráclito Fortes (Democratas), personagem central deste artigo, é o único deputado federal da bancada piauiense a figurar nessa relação. Esta é a 13ª vez que ele entra na lista.

A publicação é do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar – DIAP, e está em sua 25ª edição.

 

Heráclito com Ulysses Guimarães

“Turma do Poire”

Heráclito Fortes se projetou no meio político nacional quando foi escolhido pelo então presidente do PMDB, deputado Ulysses Guimarães, para integrar a fechadíssima “Turma do Poire” (pronuncia-se puá).

Era um seleto grupo de influentes políticos que se reunia com frequência no badalado restaurante Piantella, em Brasília, tendo Ulysses como seu líder.

Esse grupo passou a se reunir logo após a instalação da Nova República, em 1985. Os momentos de maior frequência foram durante a Assembleia Nacional Constituinte. Tudo era discutido, mas apenas na entrada, pois o prato principal era sempre política.

Daí, Heráclito tornou-se um dos interlocutores e amigos mais próximos do Dr. Ulysses Guimarães, uma referência que até hoje é citada na crônica política.  

Diretas Já!

Heráclito começou a achegar-se a Ulysses quando o deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT) apresentou à Câmara um projeto de emenda constitucional restabelecendo eleições diretas para a presidência da República.

Abraçado pelas forças de oposição, o projeto desencadeou uma campanha nacional que ficou conhecida como Diretas Já.

Na sessão da Câmara dos Deputados do dia 25 de abril de 1984, a emenda Dante de Oliveira recebeu o voto favorável Heráclito Fortes, porém não foi aprovada, por falta de 22 votos. Isso significou que a sucessão presidencial seria mais uma vez decidida por via indireta.

A oposição, reunida na Aliança Democrática — coligação do PMDB com a Frente Liberal, dissidência da agremiação governista, o Partido Democrático Social (PDS) —, lançou, então, a candidatura do ex-governador de Minas Gerais, Tancredo Neves, tendo como vice o senador José Sarney.

Heráclito Fortes tornou-se um dos articuladores da vitoriosa campanha de Tancredo.

Na Constituinte

Ao lado de Ulysses Guimarães, o deputado Heráclito Fortes fez parte, ainda, de um dos momentos mais importantes do país: a promulgação da Constituição Brasileira, que este ano comemora 30 anos.

Na Assembléia Nacional Constituinte, ele integrou, como titular, a Subcomissão do Sistema Eleitoral e Partidos Políticos, vinculada à Comissão da Organização Eleitoral, Partidária e Garantia das Instituições.

Durante a elaboração da Constituição, votou a favor do mandado de segurança coletivo, da proteção ao emprego contra a despedida sem justa causa, do turno ininterrupto de seis horas, da unicidade sindical, da soberania popular, do voto aos 16 anos e da proibição do comércio de sangue.

Votou contra a pena de morte, a limitação do direito de propriedade privada, a pluralidade sindical, o presidencialismo, a limitação dos encargos da dívida externa e a legalização do jogo do bicho.

Prefeito de Teresina

Após a promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988, nas eleições municipais do mês seguinte, elegeu-se prefeito de Teresina.

Heráclito fez campanha em meio aos trabalhos de elaboração da nova Carta. Muitas vezes participava de um comício à noite em Teresina e voltava para Brasília no meio da madrugada, para participar das sessões da Constituinte.

Na Prefeitura, implantou uma reforma administrativa e lançou experiências inovadoras, como o "SOS Teresina", embrião de um programa nacional bem-sucedido do Ministério da Saúde, o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). E fez uma ponte em 100 dias, sobre o Rio Poti.

Depois de cumprir o mandato de prefeito, voltou à Câmara nas eleições de 1994, já filiado ao PFL. Tornou-se presidente do Instituto de Previdência dos Congressistas (IPC) e membro titular da Comissão de Fiscalização e Controle.

Reelegeu-se em 1998 e assumiu o cargo de 1º vice-presidente da Câmara. A seguir, passou a ocupar a função de líder do governo no Congresso.

No Senado

Em 2002, foi eleito senador, na legenda do PFL. Ocupou a função de terceiro-secretário da Mesa Diretora e o cargo de presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado Federal.

De 2005 a 2006, presidiu o Grupo Brasileiro da União Interparlamentar.

Presidiu ainda a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional até 2009, integrou como titular a CPI das ONGs, o Conselho da Ordem do Congresso Nacional, a Comissão de Serviços de Infraestrutura e a Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle e a Comissão de Educação, Cultura e Esporte. Ainda em 2009 foi eleito primeiro-secretário.

No Senado, fez oposição ao governo do PT. E pagou caro por isso. Foi uma das vítimas daquela campanha que o presidente Lula desencadeou em todo o país para massacrar seus adversários nas urnas, em 2010.

Heráclito voltou para Brasília em 2014, como deputado federal.

Ficha Limpa

Ele fez toda a sua carreira pública sem máculas em sua biografia, sem usar os mandatos para negócios ou tráfico de influência. Brigou pelo Piauí com todas as suas forças quando alguma questão de interesse do Estado exigiu uma atitude sua.

Um desses momentos foi naquele episódio em que ele paralisou a votação do orçamento federal de 2006, no final de 2005, como pressão para garantir os recursos orçamentários da compra da escada Magirus do Corpo de Bombeiros, cortados na última hora pelo governo.

Outro gesto enérgico seu foi quando ele botou a boca no mundo, em 2003, junto com o senador Mão Santa, contra a vinda do narcotraficante Fernandinho Beira-Mar para o Piauí, como era plano do governo.

Eis, em resumo, a trajetória do menino nascido no bairro Porenquanto, na zona Norte de Teresina, que se fez político e busca, agora, a renovação de seu mandato.

Com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e jornalistas