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Além do arco-íris

Foto: Acervo pessoal

Dona Walríquia com a família e amigos na celebração do aniversário do filho Carlinhos

 

Procurei defini-la em uma palavra. Não foi possível. Tive que me valer de duas que devem ser invocadas ao mesmo tempo para expressar a sua grandeza. São elas: dignidade e generosidade.

Sempre que me lembrar dela, essas duas palavras virão obrigatoriamente na frente das demais que também poderão expressar a sua personalidade, pois ela se encaixa em muitas outras: alegria, ternura, trabalho, responsabilidade, respeito...

Refiro-me a Walkiria Almeida dos Santos Oliveira, a dona Walkiria, que nos deixou na semana passada, aos 90 anos. Tive o privilégio de conhecê-la há 20 anos e de desfrutar, ao lado de seus filhos e de seu marido, de todo o afeto e de toda a sabedoria que ela irradiava.

Da bonança à tormenta

No passado, ela foi uma próspera empresária de Teresina. Também foi servidora federal e professora pública.

Com o marido, Geraldo Oliveira, construiu quase do nada uma das maiores empresas do seguimento lojista da cidade, a ‘Galeria Juçara’, que funcionou por muitos anos no calçadão da Rua Simplício Mendes, no Centro.

Quando conheci a sua família e entrei em sua casa, onde Dona Walkiria me fez generosamente um dos seus, como a tantas outras pessoas, ela e o marido já não dispunham da riqueza de outrora.

Haviam perdido nas águas revoltas e implacáveis do mundo dos negócios todo o patrimônio acumulado ao longo de dezenas de anos de trabalho árduo e incansável.

Mas viviam dignamente, como qualquer família de classe média, sem uma queixa. Aceitavam resignadamente o desfecho desfavorável de uma vida inteira de muito esforço e dedicação ao comércio.

Em sua contabilidade, os bens que conseguiram com muita luta tinham valido a pena porque lhes permitiram criar os filhos condignamente. Puderam matriculá-los nos melhores colégios de Teresina e também comprar apartamento no Rio, para que dessem continuidade aos estudos por lá.

Jamais julgaram quem quer que seja, jamais jogaram uma pedra em alguém. Encararam os reveses dos negócios com serenidade.

O mais importante, para eles, é que a família estava unida e encaminhada na vida: o filho mais velho, César, engenheiro e consultor; o do meio, Carlos Francisco, médico como o tio, Dr. Arimatéa Santos; a mais nova, Lena, jornalista e professora.

Felizes para sempre

E assim viviam, felizes, até que seu Geraldo se fez silêncio e saudade, há seis anos. Dona Walkiria perdeu o companheiro de todas as horas e das partidas de carteado, nos momentos de lazer. E começou a enfrentar o Mal de Alzheimer e seus terríveis efeitos.

Paulo Sérgio, seu filho caçula, era especial. Morreu em seus braços há 20 anos. Todos os dias, antes de ser atacada pelo Alzheimer, ela falava nele, com a saudade infindável de mãe.

Uma vez, depois do avanço da doença, disse quase em tom de confissão que não lembrava qual era de seus filhos que tinha morrido!

Residindo em apartamento desde que se desfez de sua ampla casa, no auge da crise que devorou seus negócios, ela tinha sempre uma palavra de agradecimento a Deus por morar confortavelmente depois da tormenta.

Nos últimos anos, porém, algumas vezes, ela se arrumava toda dentro do apartamento e avisava que estava indo para a sua casa...

Um registro: seus filhos lhe cercaram de carinho e cuidado comoventes nos momentos mais difíceis de seus últimos anos. O Carlinhos, particularmente, se desdobrou, como médico, para amenizar o sofrimento dela, montando um verdadeiro hospital em casa.

Humor à flor da pele

Dona Walkiria sempre primou pela elegância. Talvez, por isso, quando jovem, ao chegar à repartição, uma colega de trabalho, muito feia e certamente invejosa, tenha tentado se aproveitar da situação ao vê-la chegar com os cabelos em desalinho:

- Walkiria, você viu alma hoje?

Ela, com a irreverência herdada do velho Joqueira, seu pai do coração, respondeu incontinenti:

- A primeira que estou vendo é você!

O bom humor era também um dos traços marcantes de sua personalidade. Muito religiosa. Uma poetisa que não desenvolveu o dom. Deixou com a família um livro com acrósticos. Gostava de ouvir música e de cantar.

A despedida

Ao entardecer de quarta-feira passada, dia 26, quando seu corpo ia juntar-se aos de Seu Geraldo e de seu filho caçula, do nada um arco-íris bordou o céu, em pleno setembro.

Para os cristãos, um sinal divino de paz. Para os que sepultavam o corpo de D. Walkiria, um aviso dos céus de que não era a tristeza do luto, mas a alegria do arco-íris, que devia marcar aquela despedida.

Hoje nos reunimos, a partir das 19 horas, na Paróquia de São Sebastião (PM), para rezar pela sua alma, na Celebração da Esperança. E seguiremos fiéis ao seu lema: “Esta fé é que nos traz de pé”