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A paixão política nas eleições

Imagem: Reprodução

Cartaz de campanha do brigadeiro

 

Conta o senador Helvídio Nunes, em seu livro “Tempo de Política”, lançado em 1996, e que tive o privilégio de editar, que, com a queda do regime ditatorial de Getúlio Vargas, em 1945, marcaram-se eleições presidenciais para o final daquele ano.

Daí sugiram dois partidos nacionais que, durante quase 20 anos, empolgaram a vida política do país: a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD).

O candidato da UDN, brigadeiro Eduardo Gomes, tinha tudo para vencer o candidato do PSD, general Eurico Gaspar Dutra, ex-ministro da Guerra (Exército) no governo de Getúlio. Era da oposição, posudo e falava bem. Dutra era feio, tímido e tinha problema de pronúncia das palavras.

Então, mal começou a campanha, o brigadeiro largou como um candidato popular. As multidões, com intensa vibração cívica, enchiam as praças públicas, nos comícios do candidato da UDN, que incorporou os sentimentos de protesto, de mudança e de esperança.

A apuração

Realizadas as eleições, em clima de festa, eis que as urnas começam a falar. E disseram, durante longa e demorada apuração, que a cada dia aumentava o número de votos a favor do general Dutra.

Na pequenina cidade de Jaicós, perdida nos sertões do Piauí, ali na região de Picos, aconteceu naquela campanha de 1945 algo curioso, digno de registro, pela espontaneidade do comentário, fruto da paixão política.

Dona Guiomar Coutinho, dona de uma das pensões existentes na cidade, era udenista roxa. No dia da movimentada feira local, ela recebeu também a visita de vários viajantes comerciais, sempre agitados e conversadores.

Na hora do almoço, casa cheia, os hóspedes de dona Guiomar sentados à mesa das refeições, um deles, amigo das novidades e da dona da pensão, mas que conhecia o irrequieto e indomável espírito udenista dela, prepara a provocação.

Lá pelas tantas, solta esta:

- “Eita, não é que o brigadeiro perdeu mesmo a eleição! A maioria do Dutra já passa dos 400 mil votos”.

Dona Guiomar interrompeu o corre-corre da cozinha para a sala das refeições, virou-se para o autor do inoportuno comentário, colocou as mãos na cintura e, com ar de supremo desafio e inabalável segurança, encarou o provocador:

- Espere! Já contaram os votos das urnas de Jaicós?

A resposta foi negativa.

Eduardo Gomes, o brigadeiro, herói nacional, venceu no Piauí e em Jaicós, mas no país perdeu a eleição para o marechal Dutra.

Ontem e hoje

Lembrei-me desse episódio a propósito do esforço do governador Wellington Dias para ajudar o candidato do PT a presidente, Fernando Haddad, a vencer o segundo turno no Piauí.

Não será difícil isso acontecer, mas, como dona Guiomar, em 45, o governador verá em 2018 o seu candidato vencendo no Piauí, mas perdendo feio no país a eleição para o capitão Bolsonaro.