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A 'cristianização' de Fernando Haddad

Fotos: CPDOC/FGV

Pedestres sobre o Viaduto do Chá, no Centro de São Paulo, passam ao lado de outdoor de Cristiano Machado

 

Na sucessão presidencial de 1950, os três partidos que dominavam a cena política brasileira – UDN, PSD e PTB – estavam diante de uma encruzilhada: Getúlio Vargas, derrubado do poder em 1945, seria ou não candidato?

O ex-presidente, apesar de autoexilado em sua fazenda, no Rio Grande do Sul, gozava de ampla popularidade em todo o país. E fazia suspense quanto ao seu futuro político, o que aumentava o interesse do eleitor em torno de seu nome.

Estava, então, criado o impasse: Getúlio demorava a se decidir e os partidos tinham pressa.

A UDN largou na frente, outra vez com o brigadeiro Eduardo Gomes, derrotado nas eleições de 45.

O PSD, seu tradicional adversário, para não ficar na poeira, lançou em seguida o seu candidato, Cristiano Machado, ex-prefeito de Belo Horizonte e ex-deputado federal.

A três meses da eleição, no entanto, Getúlio se lança candidato a presidente, pelo PTB.

Matreiro, certamente ele aguardava saber primeiro quem seriam seus adversários.

O PTB de Getúlio Vargas tinha sua base eleitoral nos sindicatos e o nome do ex-presidente era muito forte.

Cristiano Machado, candidato a presisidente em 1950

 

Sem muita dificuldade, as principais lideranças políticas de então perceberam que dificilmente ele perderia aquela eleição.

Não demorou e os principais líderes do PSD resolveram abandonar seu candidato, Cristiano Machado, que não desfrutava de popularidade nem tinha expressão nacional. Em resumo, não tinha luz própria.

Oficialmente, as raposas do PSD reconheciam a candidatura do partido, mas, extraoficialmente, apoiavam Getúlio. Por debaixo do pano,  trabalhavam para sua eleição, fazendo questão de que ele soubesse disso.

É que essas velhas raposas estavam de olho grande na futura recompensa política, com participação no novo governo, depois da vitória.

Desde então, na política brasileira, sempre que uma legenda partidária ou os aliados abandonam sua candidatura oficial e migram, discretamente, para outro candidato com maiores chances de vitória, afirma-se que o partido "cristianizou" o seu candidato, como o PSD fez com Cristiano Machado.

A história se repete

O cenário eleitoral brasileiro deste ano mostra, claramente, que muitos elementos daquele quadro sucessório de 1950 estão presentes agora.

No primeiro turno, o PMDB, o maior partido do Brasil, deu as costas para seu candidato, Henrique Meireles, e o PSDB fez a mesma coisa com o seu presidenciável, Geraldo Alckmin.

Agora, no segundo turno, o candidato do PT, Fernando Haddad, está sendo abandonado à própria sorte por muitos dos seus, ou seja, está sendo “cristianizado”, pois o nome quente da vez é o do candidato do PSL, deputado Jair Bolsonaro.