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Piauiense foi uma voz contra o arbítrio

Foto: Jornal do Brasil

Carlos Castello Branco, uma voz contra o arbítrio

 

Um piauiense se destacou na arte de furar o cerco do Ato Institucional nº 5 às liberdades. Foi o jornalista Carlos Castello Branco (1920-1993).

Sua “Coluna do Castello”, publicada pelo Jornal do Brasil e leitura obrigatória do país todas as manhãs, foi escrita durante grande parte de sua vida com o país submetido à censura e ao arbítrio.

Democrata convicto, com trânsito livre entre políticos de todas as correntes ideológicas, Castelinho, como era conhecido na intimidade, era um dos raros jornalistas que o regime militar não rotulava como esquerdista.

Mesmo assim, logo após a decretação do AI-5, em 13 de dezembro de 1968, ele foi preso, pois também não fazia concessões ao regime.

O jornalista só voltou ao batente no dia 1º de janeiro de 1969, permanecendo nas páginas do JB nos períodos mais duros do regime militar, em função de sua habilidade profissional e também das contradições do sistema.

Voz do Congresso

Dentro do próprio governo, grupos mais liberais sempre trabalharam para que a “Coluna do Castello” não sucumbisse à censura.

O AI-5 autorizou o presidente Costa e Silva, o segundo do ciclo militar, a decretar o recesso do Congresso Nacional; intervir nos estados e municípios; cassar mandatos parlamentares; suspender, por dez anos, os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens considerados ilícitos; e suspender a garantia do habeas-corpus.

Durante os 10 anos de fechamento do Congresso, Carlos Castello Branco, que entraria para a história do jornalismo como o maior analista político do Brasil, na segunda metade do século 20, era a voz do parlamento amordaçado.

O escritor José Sarney proclamou, ao saudá-lo, em 1982, na sessão de sua posse na Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira 34,

- Ele foi o Congresso quando o Congresso não era.

Um profeta

Na passagem dos 50 anos de decretação do AI-5, completados ontem, faz-se oportuno lembrar que a "Coluna do Castello" era a consciência do país. O estilo elegante ele o extraiu dos textos de Machado de Assis, sua leitura diária. O jornalista não batia perna atrás de notícia. As informações chegavam até ele. Ouvia muito e falava pouco, para apresentar ao leitor o sumo da política.
"Quem sabe das coisas, percebe que há muita garimpagem naquelas linhas, escritas em meia hora. Quem não sabe, acaba constatando, alguns dias depois, que a coluna havia antecipado uma tendência ou uma decisão do governo. Foi assim em 68, pouco antes do AI-5. Foi assim em 61, antes do parlamentarismo, quando já previa o desastre de 64. E foi assim em janeiro de 1985, quando anteviu que Tancredo não completaria seu mandato", escreveu o jornalista Paulo Markun, ao traçar seu perfil para a revista Imprensa de setembro de 1987.

A produção do jornalista sobre o período está reunida no livro “Os militares no poder”, que saiu em três volumes.