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Planalto dá golpe em Renan

Foto: Pedro França/Agência Senado

Alcolumbre comemora vitoria no Senado

 

A eleição da nova Mesa Diretora do Senado teve de tudo e mais um pouco. Para começar, a votação deveria ter ocorrido na sexta-feira, mas foi adiada para ontem, depois de muito tumulto e bate-boca entre os senadores.

Os parlamentares aprovaram votação aberta na tumultuada sessão de sexta-feira. Porém, uma decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, quebrou o silêncio da madrugada, ao determinar que a eleição fosse feita através de votação secreta.

O ministro atendeu a um pedido do senador Renan Calheiros (MDB) e de seus aliados, cobrando o cumprimento do Regimento Interno, que prevê voto secreto.

Em voz alta

Uma turma do barulho do Senado fez vistas grossas para a decisão do presidente do Supremo. Seus votos foram declarados alto e bom som.

Mas as novidades que fizeram o Senado oscilar entre o ridículo e o patético não acabaram por aí. Na apuração dos votos, foi detectada uma cédula a mais na urna – 81 senadores e 82 votos.

Isso provocou mais algazarra e o cancelamento da eleição - e todos os papéis foram triturados, antes de qualquer apuração.

Os senadores discutiram e decidiram fazer uma 2ª votação.

Disputaram a presidência os senadores Ângelo Coronel (PSD-BA), Davi Alcolumbre (DEM-AP), Fernando Collor (Pros-AL), Esperidião Amin (PP-SC) e Reguffe (sem partido-DF).

Os senadores Álvaro Dias (Podemos-PR), Major Olímpio (PSL-SP) e Renan Calheiros (MDB-AL) retiraram-se da disputa.

Resultado

O resultado da eleição no Senado foi o seguinte:

Davi Alcolumbre (DEM-AP) - 42 votos

Esperidião Amin (PP-SC) - 13 votos

Angelo Coronel (PSD-BA) - 8 votos

Reguffe (sem partido-DF) - 6 votos

Renan Calheiros (MDB-AL) - 5 votos

Fernando Collor (Pros-AL) - 3 votos

Reviravolta

O senador Renan Calheiros tentava comandar o Senado pela quinta vez. E, com tanto know-how, seguia como favorito. No entanto, foi atropelado por uma articulação operada pelo ministro da Casa Civil do Palácio do Planalto, deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS).

A vitória de Alcolumbre é, portanto, a coroação do poder de Lorenzoni no Planalto. Poucos davam muito pelo ministro, que até ontem era visto como o maior problema de governabilidade para o presidente.

O fato, porém, é que agora o DEM passa a comandar o Senado Federal e Câmara dos Deputados, pois na sexta-feira (1º) o deputado Rodrigo Maia (RJ) foi reconduzido à presidência da Câmara, também em primeiro turno.

É a primeira vez desde a redemocratização que o MDB não comanda nem uma casa nem a outra. No popular, Lorenzoni fez cabelo e barba. 

Davi e Golias

O novo presidente do Senado é filiado ao DEM do Amapá. Ele tem 41 anos e se elegeu para dirigir o Senado ao obter 42 votos, um a mais que os 41 necessários para um candidato ganhar no primeiro turno. Dos 81 senadores, votaram 77.

Alcolumbre é comerciário, com formação incompleta em Ciências Econômicas. Na eleição de 2018, disputou o governo do Amapá. Ele perdeu a eleição para Waldez Góes (PDT).

Estava em campanha para presidir o Senado desde novembro, com o incentivo de Lorenzoni, mas não aparecia como viável. Por isso, passou a ser chamado desde ontem de o pequeno Davi do Congresso, ao derrotar o gigante Golias que é Renan.

Do baixo clero

A derrota de Renan não significa, no entanto, uma vitória para o governo Bolsonaro. É apenas um gol na largada de um jogo que segue.

Ao retirar sua candidatura, o senador vira o líder da oposição. Se não houver um trabalho urgente e eficaz para isolá-lo, ele terá capacidade de causar grandes estragos ao Planalto.

Certamente, o governo tinha muito a perder com uma vitória de Renan, mas tem pouco a ganhar com a vitória de Alcolumbre.

O senador do Amapá logrou êxito mais pela sua condição anti-Renan, bancada pelo Planalto, do que pelos eventuais méritos que possa ter como líder do Congresso de um país em crise.