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Jesualdo – da humilhação à exaltação

Foto: Cidadeverde.com

Jesualdo Cavalcanti, ex-presidente do TCE 

 

Ele conheceu a brutalidade da injustiça ainda em plena juventude. Pagou com cadeia, humilhação pública e a cassação de seu mandato popular a ousadia de ser um jovem que sonhava. Um jovem cujos sonhos eram, em suma, os de viver em uma sociedade justa, fraterna e livre.

A amarga experiência que ele viveu em um momento conturbado do país não o transformou, entretanto, em um derrotado. Muito menos em um revoltado. Ou em um ressentido.

Daquela dolorosa provação saiu um homem altivo, com mais firmeza de caráter e que fez da luta pela justiça uma verdadeira obsessão, já a partir de sua formatura, na velha Faculdade de Direito do Piauí, em 1966. 

Aquele jovem foi sepultado ontem, no final da tarde, em Teresina, aos 79 anos de idade, mas fiel, ainda, aos seus ideais da juventude, daí porque o tempo não o envelheceu.

Refiro-me a Jesualdo Cavalcanti Barros, um garoto que veio dos confins do Piauí para fazer história na capital. Um menino nascido em numerosa família de 16 irmãos, sob o signo da II Grande Guerra – quem sabe esteja aí a explicação para o seu permanente espírito de luta!

Ainda pequeno, fez de tudo: na fazendola da família, labutou com terra, plantas e bichos; colaborou no jornalzinho da escola; fundou grêmios escolares; fez-se líder estudantil.

Mais tarde, entrou na política: vereador, deputado estadual, secretário de Cultura, deputado federal constituinte, novamente deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa.

Prisão e cassação

Como vereador, entrou para a história como o primeiro político do Piauí cassado e preso pelo regime militar de 1964. Ele desfrutava de grande popularidade na capital, pelos posicionamentos progressistas e pela oratória vibrante.

Também por apresentar e aprovar projetos de grande alcance social, como o que implantou a meia passagem para estudantes nos ônibus, no cinema e no teatro, ainda hoje em vigor.

Foto: Acervo pessoal

Jesualdo como vereador de Teresina, em 1963

Na cultura

Como secretário de Cultura, no Governo Hugo Napoleão, escreveu uma das mais belas páginas do setor em toda a sua história. Instalou vários espaços culturais.

Com engenhosidade, criou o Projeto Petrônio Portella, que editou e reeditou obras fundamentais da história e da literatura piauienses.

Também construiu, através da Rimo, uma rede de hotéis no interior do Piauí, beneficiando municípios com vocação turística: Amarante, Canto do Buriti, Corrente, Esperantina, Luís Correia, Pedro II, São Raimundo Nonato e Uruçuí.

Na Constituinte

Como deputado constituinte, votou a favor do presidencialismo, da limitação dos encargos da dívida externa, do voto aos 16 anos, da nacionalização do subsolo e da jornada de trabalho de 40 horas semanais.

Foi contra o aborto, a desapropriação da propriedade produtiva, a demissão sem justa causa e a legalização dos jogos de azar.

De volta à província, como deputado estadual, após assinar a nova Constituição do Brasil, presidiu a Assembleia Legislativa.

Nesse cargo, travou duas lutas que o levaram ao limite de suas forças: uma institucional e outra pessoal. A primeira, pela moralização da Casa. A segunda, pela própria vida, quando o coração parou em meio ao combate.

No Tribunal de Contas

Vencida mais essas batalhas, tornou-se conselheiro e presidente do Tribunal de Contas do Estado, por dois mandatos.

Em sua gestão, edificou o seu majestoso edifício-sede e – mais que isso – construiu para o TCE a imagem de uma instituição comprometida com o dinamismo, a modernização e a eficiência do controle externo.

Com a missão cumprida no Tribunal de Contas, pediu a aposentadoria, mas não vestiu o pijama.

Na literatura

Equipou-se de apetrechos - máscara, luvas, lupa, caderno de anotações, caneta, etc. - e caiu para dentro do Arquivo Público Estadual. Passou a escarafunchar velhos papeis e documentos. De suas pesquisas resultaram a publicação de vários livros, entre eles Notícia do Gurgueia (2002), Memória dos Confins (2005) e Sertões de Bachareis (2011).

Tive a honra de prefaciar seu livro de memórias, Tempo de Contar – o que vi e sofri nos idos de 1964, publicado em 2006.

Também fundou o Centro de Estudos e Debates do Gurguéia (Cedeg), entidade voltada para a discussão em torno da criação do estado do Gurguéia, no território que compreende o Sul do Piauí.

Na Academia

Fiz parte de um grupo de acadêmicos que articulou o seu ingresso na Cadeira nº 3 da Academia Piauiense de Letras, em 2010, em reconhecimento à sua vasta produção literária e ao seu trabalho como secretário de Cultura. E, ainda, pela contribuição que ele poderia dar - e que deu - à APL.

Nas eleições de 2012, Jesualdo atendeu a um chamamento de sua terra e candidatou-se à Prefeitura de Corrente. Foi eleito e fez uma gestão realizadora e austera, contando sempre, como a vida inteira, com o apoio incondicional da professora Socorro Cavalcanti, sua dedicada e inseparável esposa.

O silêncio fala 

Político algum, especialmente nos dias de hoje, escapa da língua de fogo dos adversários, sempre carregada de acusações, levianas ou não, da prática de malfeitos. A menos que ele se chame Jesualdo Cavalcanti Barros.

Contra este ninguém jamais ousou lançar, em tempo algum, as pechas de incompetente ou desonesto ou qualquer outra que pudesse desabonar a sua conduta.

Jesualdo ouviu em silêncio, desde sexta-feira à noite, quando subiu ao reino da eternidade, os muitos elogios exaltando as suas qualidades de homem público que honrou os votos recebidos e as funções públicas exercidas.

Bem ao seu estilo contido, sereno e perspicaz, certamente deu de ombros:

- Ora, eu apenas procurei cumprir o meu dever!

Foi esse o Jesualdo Cavalcanti que tivemos o privilégio de conhecer e admirar. E de quem vamos lembrar sempre, com saudade, como um exemplo a ser seguido como político, gestor, intelectual, pai de família e amigo!