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Pádua Ramos morre em Fortaleza

Foto: Arquivo/Seplan

Pádua Ramos, ex-secretário de Planejamento

 

O administrador, advogado, consultor e professor Antônio de Pádua Ramos morreu ontem à noite, em Fortaleza, aos 84 anos de idade. Ele tinha sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e estava internado há mais de um mês. O velório está sendo realizado na Ethernus, em Fortaleza, com missa às 11 horas, antes do sepultamento.

Pádua Ramos nasceu em Parnaíba, em 5 de fevereiro de 1935. Em sua cidade natal, morou e estudou até os 20 anos, quando se transferiu para Fortaleza, onde se formou e exerceu a sua atividade profissional, como funcionário do Banco do Nordeste e professor da Universidade Estadual do Ceará.

Ele ocupou vários cargos públicos no Piauí e Ceará. No primeiro governo Alberto Silva (1971-1975), foi secretário de Planejamento, sendo o responsável pela elaboração dos grandes projetos realizados no período. Foi secretário de Planejamento também do Ceará.

Pádua Ramos foi, ainda, superintendente de Operações da Sudene/Finor; presidente do Bandece – Banco de Desenvolvimento do Ceará; do BEC -Banco do Estado do Ceará e do BEP – Banco do Estado do Piauí, além de superintendente-adjunto da Sudene e pró-reitor de Planejamento da UECE.
 

Um supersecretário

O Governo Alberto Silva começou, em 1971, com uma ampla e profunda reforma administrativa. Nela, a velha Coordenação do Desenvolvimento do Estado (Codese), criada nos anos 1950, no Governo Gayoso e Almendra, foi transformada em Secretaria de Planejamento. Na verdade, uma supersecretaria.

A pasta foi entregue ao gênio de Pádua Ramos, parnaibano, técnico do Banco do Nordeste e membro da equipe do ministro Reis Velloso. Com grande capacidade de articulação e liderança, ele era o coordenador geral da equipe de governo. Tinha ainda trânsito livre por todos os segmentos, além de ser um intelectual criativo e inquieto.

Por iniciativa sua, além de criar e estruturar a Secretaria de Planejamento, o Governo do Estado criou a Fundação Cepro (Fundação Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais do Piauí), voltada para o desenvolvimento de pesquisas nos campos econômico e social.

A fundação reuniu os principais cérebros do Piauí na área técnica e, por muito tempo, desfrutou do prestígio de uma Fundação Getúlio Vargas. A Cepro foi extinga no mês passado, morrendo, portanto, junto com o seu criador.

Foto: Acervo pessoal

Pádua Ramos, ao centro, com o governador Alberto Silva, em reunião técnica, nos anos 70

Na equipe de Reis Velloso

Pádua Ramos havia trabalhado como assessor no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), fundado em 1967 pelo economista Reis Velloso. O modelo do planejamento federal daquele período foi, então, a sua inspiração para transformar a Codese em Seplan e criar a Fundação Cepro.

Para se ter uma ideia do avanço daquela reforma administrativa para a época, já naquela ocasião ela introduzia o processamento eletrônico no tratamento dos assuntos orçamentários e financeiros.

A Secretaria de Fazenda também passou por mudanças, com a descentralização e a criação das Diretorias Regionais, objetivando potencializar a arrecadação do Estado.

Nesse período, criaram-se também a Companhia de Desenvolvimento Econômico do Piauí (Comdepi), a Empresa de Turismo do Piauí (Piemtur) e a Secretaria de Cultura.

Houve, ainda, a reestruturação de várias secretarias, objetivando dar maior racionalidade, mobilidade e celeridade às rotinas administrativas.

A reforma passou a ser considerada uma das principais intervenções do governo Alberto Silva na vida social piauiense. Mesmo seus adversários a apontavam, em diferentes oportunidades, como uma de suas maiores contribuições para o estado.

O trânsito de Pádua Ramos com Reis Velloso, de quem foi colega de turma no curso ginasial, em Parnaíba, e amigo pela vida inteira, ajudou na aprovação dos projetos do Governo do Piauí e na liberação de recursos para o Estado em larga escala.

Instituto Pádua Ramos

Já fora da vida pública, Pádua Ramos fundou no Ceará o Instituto Pádua Ramos (IPR), também denominado Pádua Ramos Consultores S/S Ltda. 

A primeira denominação (Instituto) é usada quando da elaboração de estudos e projetos destinados a objetivos diretamente sociais. E a segunda, quando os estudos e projetos são elaborados para empresas.

O IPR foi criado para elaborar estudos sociais e econômicos para a área governamental, notadamente Estados e Municípios.

Cultura

Pádua Ramos tinha ainda grande militância cultural, desde a juventude. Um de seus últimos projetos no primeiro Governo Alberto Silva foi na área da cultura, o Auditório Herbert Parentes Fortes, em Teresina.

No segundo governo Alberto Silva (1987-1991), ele trouxe a Teresina o editor Gurmecindo Rocha Doréa, para lançar dois livros de Herbert Parentes Fortes, "Euclides da Cunha, o estilizador de nossa história" e "A questão da lingua brasileira", com correspondências entre o autor e o escritor Monteiro Lobato acerca da lingua portuguesa.

Pádua Ramos escreveu artigos e livros sobre políticas públicas e planejamento social, destacando-se “Em Busca do Ângulo Alfa” e “Manual do Desenvolvimento Social e Econômico do Município”.

Também aventurava-se a escrever poesia. Em 21 de julho de 2015, ele me mandou por e-mail o poema “Metamorfose”, de sua autoria, no qual aborda a brevidade da vida e professa a sua fé no eterno:

 

Metamorfose

Pádua Ramos

(...)

Tudo é lentamente ou velozmente mutante...

 

A borboleta é o estágio final, é o repouso.

Também a flor, que começa a nascer na semente,

Vai-se transformando, transformando, lentamente.

 

Tudo enfim é harmonia,

Enfim tudo se conjuga na grande sinfonia,

Do concerto universal.

 

Cada ser: uma nota viva,

Da grande sinfonia,

Do concerto universal.

 

O Maestro é Deus.