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Valeu, Doutor!

Foto: Cidadeverde.com/Reprodução

Dr.Alcenor Almeida, em seu gabinete de trabalho, no Hospital São Marcos

 

A missa de 7º dia do Dr. Alcenor Barbosa de Almeida foi celebrada ontem à noite, na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, pelo padre Tony Batista. O médico morreu no domingo passado, dia 5, aos 93 anos de idade.

O Dr. Alcenor Almeida passa à história como o construtor de uma obra monumental do Piauí, o Hospital São Marcos.

Além disso, será lembrado também como um médico que dedicou toda a sua vida à prática de uma saúde humanizada, de excelência e acessível a todos.

Sob a sua direção, por mais de meio século, o hospital formou gerações de profissionais que pontificam entre os mais qualificados do Brasil.

A sua abnegação, sua capacidade de liderança, sua criatividade, seu espírito empreendedor e seu pulso firme transformaram o São Marcos em uma referência nacional no tratamento do câncer.

O hospital criou as condições para a cura e, quando isso não foi possível, no mínimo proporcionou melhor qualidade de vida para os portadores dos males oncológicos.

Não são poucos os depoimentos de pacientes que saíram em busca de tratamento oncológico fora do Piauí e receberam instruções dos profissionais de lá para retornarem imediatamente para Teresina, indicando o São Marcos com o mesmo padrão dos hospitais mais avançados do país.

Histórias que se misturam

A história do Dr. Alcenor se confunde, pois, com a do Hospital São Marcos. É fato que a Sociedade Piauiense de Combate ao Câncer, entidade mantenedora do hospital, já existia antes de ele se incorporar à luta contra o câncer.

A Sociedade foi fundada em 12 de novembro de 1953, em sessão realizada na Associação Piauiense de Medicina.

A primeira diretoria da entidade, eleita por aclamação: Lindolfo do Rego Monteiro (presidente); Décio Genuíno de Oliveira (vice-presidente); Dirceu Mendes Arcoverde (secretário-geral), Anastácio Madeira Campos (secretário interno); Ayres Neto, Gerardo Vasconcelos e Zenon Rocha (Conselho Técnico).

Um ano depois de sua fundação, a Associação Piauiense de Medicina reuniu os sócios da recém-criada Sociedade para escolher uma nova diretoria.

A direção da entidade fora desfalcada com a renúncia da maioria de seus diretores, que estavam absorvidos por outros afazeres profissionais.

Só um laboratório

Até então, o hospital ainda era apenas um sonho de um grupo de idealistas. Na verdade, não passava de um ambulatório no centro da cidade.

O Dr. Alcenor Barbosa de Almeida assumiu a sua direção geral em 1965 e fez toda a diferença. De saída, ele construiu 70 leitos, dois pavimentos e um centro cirúrgico com seis salas.

Desde então, o hospital foi transformado em um canteiro de obras permanente.

Mudança

Ao logo do tempo, o hospital cresceu para um lado, para o outro, para cima e para outros quarteirões da área que hoje integra o Polo de Saúde de Teresina, seguindo sempre um belo e arrojado projeto arquitetônico.

Em 1979, seu nome mudou de Hospital do Câncer de Teresina para Hospital São Marcos, tendo em vista que se pretendia transformá-lo em um hospital geral e os pacientes não oncológicos se recusavam a ali se internar.

Assim, foi construído um hospital moderno, dotado de recursos tecnológicos avançados e profissionais capacitados, capaz de acolher portadores das patologias mais diversificadas, incluindo procedimentos de alta complexidade.

Foto: Reprodução

Hospital São Marcos, referência nacional em tratamento contra o câncer

 

Ampliação

O São Marcos continuou crescendo, o ambulatório foi ampliado de oito consultórios para o que tem hoje: 89. De um só médico foi para dez e hoje possui 320 médicos e 1.909 funcionários.

O hospital ocupa atualmente um prédio de três andares, com oito blocos, um centro cirúrgico com 10 salas de cirurgia, serviço de hemodinâmica com duas máquinas, três UTIs de dez leitos cada, serviço de quimioterapia com 20 leitos para tratamento ambulatorial, radioterapia com dois aceleradores lineares e um equipamento de braquiterapia.

Todo esse serviço de radioterapia é computadorizado.

O menino que sonhava ser médico

Alcenor nasceu em 13 de julho de 1926, no seio de uma família de sete irmãos, na cidade de Palmeirais, a 100 km ao Sul de Teresina.

Desde muito jovem, já imaginava cursar Medicina, iniciando esse percurso em estudos primários na cidade natal e depois no Liceu Piauiense.

Nos anos 1940, contudo, estudar Medicina significava sair do Piauí. E foi isso o que ele fez. Levado pelo sonho de se tornar médico e carregando na mala bastante saudade, foi ainda muito jovem para o Rio de Janeiro.

Ingressou na Faculdade Nacional de Medicina. Em 1952, ele estava formado e faria o caminho de volta para Teresina.

No ano seguinte, 1953, deu início à sua bem-sucedida carreira médica. Por mais de 50 anos, atuou como cirurgião, fazendo consultas e dirigindo o Hospital São Marcos.

“O dono do São Marcos”

Em entrevista ao portal do Medplan, em 2005, ele observava que muita gente achava que ele era dono do Hospital São Marcos. “Mas não sou. O hospital é uma instituição filantrópica, comandada por uma diretoria”, esclareceu, com bom humor.

Se não ganhava dinheiro no hospital, ele ganhava satisfação. “Esse hospital me dá vida longa. Meu trabalho não é remunerado, pois como é uma instituição filantrópica não pode ter a diretoria remunerada, tudo que é ganho é reinvestido.”

Ele acrescentava, então, que essa intensa atividade à frente do São Marcos o matinha como uma pessoa com grande vigor físico. “Trabalho geralmente das 9h às 14h e raramente almoço antes das 15h. Quando completei 70 anos fechei meu consultório e passei a me dedicar somente ao São Marcos. Sou aposentado pelo IAPC e pelo Samdu e ainda pela Previdência como autônomo. Minha mulher é aposentada. Vivemos disso, faço esse trabalho no hospital com prazer. Tem gente que pensa que sou rico, mas não sou. Tenho até medo de sequestro, porque não tenho dinheiro para resgate”, brincou.

Ao jovem médico

O Doutor Alcenor Almeida deixou um conselho para os que estavam se iniciando na medicina: “Que atendam as pessoas com muito carinho, olhando nos olhos. Atender com atenção, seja rico ou pobre. Se o médico souber atender bem vai ter sucesso.”

Há uns 10 anos, o Doutor Alcenor me chamou à direção do São Marcos para me convidar a escrever um livro com a história do hospital. Trocamos ideias sobre o assunto, mas o projeto não andou. Não lembro o motivo.

Em 2013, foi lançada em Teresina a biografia do Dr. Alcenor, escrita por Carmem Maria Almeida. A publicação foi uma homenagem da família.

O título da obra traduz bem a contribuição que ele deu à medicina: “Valeu, doutor!”