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Que tiro foi esse, Brasil?

O governo Bolsonaro viveu uma semana de estresse. Desgastado por derrotas em série no Congresso Nacional, o governo se vê obrigado a fazer concessões ao parlamento para aprovar as suas reformas. Ou reza na cartilha da ‘velha política’ ou terá muita dificuldade para se sustentar.

Não bastasse, a voz rouca começa a tomar conta das ruas. A oposição, as centrais sindicais e os demais focos de resistência ao governo estavam sem discurso para organizar um protesto nacional contra Bolsonaro.

Mas aí vem o governo, faz contingenciamento de verbas da educação, sem explicar direito a medida, e dá um mote de mão beijada para os adversários.

Todo governo fez o que o atual faz, em relação à suspensão de gastos previstos no orçamento. Porém, quando ele apareceu com a explicação, poucos ainda queriam ouvi-la.

Lenha na fogueira

Contudo, ao invés de baixar a bola e procurar apagar os focos de incêndio, o presidente decide jogar mais lenha na fogueira, ao compartilhar com aliados, pelo WhatsApp, texto de um “autor desconhecido” que expõe as dificuldades que ele enfrenta no governo, devido a pressões de grupos organizados.

O texto, obtido e divulgado pelo jornal Estadão, conclui que o “Brasil está disfuncional”, e que a culpa não é do presidente, mas sim das corporações que impedem as mudanças propostas pelo governo.

O texto traz ataques ao Parlamento, ao Judiciário e a outras instituições. Só o Executivo, na era Bolsonaro, é visto com perfeição, no entanto, impotente.

‘Golpe’

Foi o bastante para o mesmo jornal publicar ontem um editorial alertando que Jair Bolsonaro prepara um golpe contra a democracia, afrontando o Congresso e a Justiça.
Um dos sinais seria o seu incentivo para a mobilização contra o que ele classifica, mas sem detalhar, de “sistema”. O movimento está convocado para o dia 26 deste mês.

Conforme o editorial, “O presidente Jair Bolsonaro considera impossível governar o Brasil respeitando as instituições democráticas, especialmente o Congresso. Em sua visão, essas instituições estão tomadas por corporações – que ele não tem brio para nomear – que inviabilizam a administração pública, situação que abre caminho para uma “ruptura institucional irreversível” – conforme afirma em texto que fez circular por WhatsApp ontem, corroborando-o integralmente, como se ele próprio o tivesse escrito.

Ao compartilhar o texto, qualificando-o de “leitura obrigatória” para “quem se preocupa em se antecipar aos fatos”, Bolsonaro expressou de maneira clara que, sendo incapaz de garantir a governabilidade pela via democrática – por meio de articulação política com o Congresso legitimamente eleito –, considera natural e até inevitável a ocorrência de uma “ruptura”.”

Pensamento tosco

Nas mídias sociais, a militância bolsonarista está febril. E avalia que as denúncias e críticas da imprensa ao governo têm a ver com a falta de verbas publicitárias oficias para os grandes veículos de comunicação.

É um raciocínio tosco, à moda do expresso pelos petistas quando a mídia caiu em cima dos governos deles denunciando seus escândalos.

Já se fala também na armação de um golpe contra o presidente, que, até aqui, apesar de seus desacertos e da falta de rumo, não deu motivos para tanto.

Talvez dê esperança para os golpistas, em sua esmagadora maioria situados na oposição, mas abrigados também nas hostes governistas.

Muitas das queixas do presidente, sobre a ingovernabilidade do país, são procedentes e conhecidas. Por acaso, Bolsonaro pensou que seria fácil governar o Brasil? Nunca foi. Nunca será!

Ópera-bufa

Um Congresso que funciona com uma Constituição parlamentarista nas mãos e que, com ela, já derrubou dois presidentes pelo impeachment, no período democrático, nunca foi fraco.

No momento, a crise econômica corre o risco de ganhar mais força, penalizando ainda mais a população, e a classe política não dá sinais de que conduzirá o país à estabilidade e ao crescimento.

O presidente ainda não se fez líder desse processo de mudança. Prefere sair comprando briga por aí.

A estas alturas, muitos dos 57 milhões de brasileiros que votaram no candidato presidencial do PSL, em 2018, estão batendo palmas para a ópera-bufa que tem sido o seu governo.

Mas muitos outros que votaram nele, em número crescente, estarão a se indagar: “Que tiro foi esse?”