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Rio de Janeiro, o caos feito na politicagem e corrupção


Wellington Moreira Franco: o quinto ex-governador do Rio de Janeiro a ser preso nos últimos tempos  (FOTO: Planalto / Divulgação)

 

Na quinta-feira passada, o Rio de Janeiro viveu dois momentos únicos, ainda sem registro na história do estado. Foi o dia em que o ex-governador Moreira Franco acabou entre as grades, fazendo que todos os ex-governadores vivos do Rio estejam ou tenham estado presos em algum momento. Também foi o dia que, pela primeira vez, o livro de posse na Assembleia Legislativa saiu da Casa para empossar cinco deputados. O destino do livro: a cadeia, onde estão quatro desses deputados.

As duas cenas registradas na quinta-feira mostram algo de extraordinário. Mas, em termos de Rio de Janeiro, não surpreendem. O estado, que é a principal cara turística do Brasil no exterior, é hoje também a face mais viva da promiscuidade na relação entre o público e o privado, na esteira da politicagem e da corrupção. É como se a bandalheira fosse a regra, envolvendo os mais diversos segmentos. Um exemplo: ano passado a PM do Rio expulsou mais de 1.300 policiais por má conduta.

Copa, Olimpíadas, metrô, BRT, construção de hospital, coleta de lixo, ônibus, milícia, investigação policial... Os escândalos sucessivos mostram que praticamente nada era levado adiante no Rio de Janeiro sem um acerto anterior, definido na forma de propinas. A corrupção tornou-se a regra. Outra regra: nada funciona bem no estado, do trânsito às escolas; da polícia aos postos de saúde.
 

O caso dos deputados presos

Foi, para dizer o mínimo, um vexame: a mesa diretora da Assembleia do Rio foi até o Complexo Penitenciário de Bangu. Levou o livro de posse debaixo do braço para investir no cargo quatro deputados – todos na cadeia desde novembro, acusados de participarem de esquema de corrupção no qual aprovavam leis em troca de benefícios. São eles: André Corrêa (DEM), Luiz Martins (PDT), Marcus Abraão (Avante) e Marcus Vinícius Neskau (PTB). Em seguida, com o livro de posse em mãos, os dirigentes da Assembleia foram para a casa de Chiquinho da Mangueira (PSC), que cumpre prisão domiciliar pelo mesmo escândalo. Lá deram posse ao parlamentar.

Claro, o gesto gerou reação. Outros parlamentares pretendem recorrer contra a posse dos deputados-presidiários. Também o Ministério Público avalia a possibilidade de contestar a posse dos "meliantes".
 

Os ex-governadores atrás das grades

A prisão de ex-governadores é tradução da aliança entre politicagem e corrupção, uma reafirmando a outra. O resultado foi muita roubalheira durante décadas, acabando mais recentemente na prisão e condenação de diversas autoridades do Estado. Diversos empresários foram presos, o TCE quase todo acabou na cadeia e a lista de políticos inclui as principais “estrelas” como Eduardo Cunha e Sérgio Cabral.

Dos ex-governadores eleitos pelo povo do Rio que estão vivos, estão presos Sérgio Cabral (que já está condenado a mais de 100 anos), Pezão e Moreira Franco. Já estiveram entre as grades Antony Garotinho e Rosinha Matheus.  Só escapam Nilo Batista (vice que se tornou governador tampão com a renúncia de Brizola) e Benedita da Silva (também vice, que assumiu governo tampão com a renúncia de Garotinho).

Quanto aos deputados, ainda há um sexto, eleito em outubro, que também está preso e deverá receber o livro de possa no “aconchego” da cela.

Reforma da Previdência fica sem ‘namorada’ e alarma governo


Rodrigo Maia: "namorada" da reforma da Previdência, anunciou ao governo que deixa articulação  (FOTO: Câmara / Divulgação)

 

Serenidade não costuma dar ibope nas redes sociais. Bom mesmo é fustigar, provocar, polemizar: dá curtida e seguidores no mundo virtual. Na vida real, às vezes dá até voto. Mas o mais comum mesmo é que dê dor de cabeça. Muita dor de cabeça. O governo de Jair Bolsonaro parece que tem exibido boas demonstrações disso. O último exemplo é a refrega com o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), o presidente da Câmara que vinha assumindo a condição de articulador da reforma da Previdência.

Vinha, porque Rodrigo ligou para o ministro Paulo Guedes – o “funcionário de Bolsonaro” para o setor – e disse que deixa a articulação. A gota d’água foi um post do senador Carlos Bolsonaro criticando Rodrigo. O post por si só já era um problema. Mas ele tinha um efeito maior ao, na prática, confirmar que ataques em série nos últimos dias contra o presidente da Câmara tinham o DNA de Carlos.

A “brincadeira” na rede social causou um vendaval no governo. Do Chile, Bolsonaro disse que não entendia a decisão de Rodrigo pois não tinha dado motivo para a desistência. Comparou o fato à situação de uma namorada que pede para acabar o namoro: se o namorado quer que ela fique, procura dialogar com a amada. O presidente disse que vai dialogar com o deputado.

É possível que Rodrigo volte à condição de namorada... quer dizer, de articulador, já que tem convicção – e não é de hoje – da necessidade de uma reforma da previdência como ajuste necessário para tornar o governo equilibrado e o país competitivo. Mas o episódio expõe as dificuldades de um governo que não consegue dialogar no tom certo com o Congresso e vê sua base cada vez mais dispersa.

Na prática, o governo está longe de reunir as condições para aprovar uma reforma que carrega um verniz antipopular. Sem apelo popular e sem diálogo com o governo, que deputado se disporá a abraçar a reforma?
 

Começa campanha ‘Fica, Rodrigo’

A decisão de Rodrigo Maia de abandonar a articulação da reforma da Previdência alarmou o governo. Bolsonaro fez afagos direto do Chile. Mas aqui começou uma espécie de campanha “Fica, Rodrigo”. Quem primeiro fez um post – sim, sempre os posts – foi o outro congressista do clã Bolsonaro, o deputado Eduardo. Ele rasgou elogios ao presidente da Câmara. Era uma espécie de pedido de desculpas pelas críticas do irmão senador.

Mas o apelo mais forte foi mesmo da líder do governo na Câmara, deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) – também em um post na rede social. Com outras palavras, ela disse que a reforma é Rodrigo ou Rodrigo é a reforma. Sem ele, fica difícil a tramitação ter êxito. Ela não disse, mas é bom que seja dito: sem a reforma, o governo Bolsonaro perde muito do horizonte. E, na avaliação de técnicos de diversos vernizes, se o desfecho da tramitação for negativo, o Brasil também perde muito desse horizonte.

Prisão de Temer pode ser entrave na votação de reformas


Michel Temer e Moreira Franco: a prisão dos dois provoca reflexos no ânimo do Congresso Nacional  (FOTO: Planalto / Divulgação)

 

As dificuldades que o governo enfrenta para dar curso à tramitação da reforma da Previdência e do projeto Anticrime podem ganhar mais solidez a partir de hoje, em razão do episódio da prisão do ex-presidente Michel Temer e do ex-ministro Moreira Franco. A prisão foi, de modo algo generalizado, aplaudida por boa parte do governo de Jair Bolsonaro. O tom no Congresso, no entanto, é distinto. Boa parte da Casa torceu o nariz, inclusive porque muitos congressistas se enxergam como alvos possíveis da Lava Jato.

Essa diferença de perspectiva pode colocar um pouco mais de dificuldade na tramitação – de resto, já cheia de senões – das matérias de interesse do Planalto. O projeto Anticrime, desenhado pelo ministro Sérgio Moro, parece ser o mais prejudicado. O texto endurece no trato com o crime de corrupção e em relação às organizações criminosas. Isso gera temores em boa fatia do Congresso, no que diz respeito aos crimes de colarinho branco.

A situação torna-se ainda pior no caso de uma parte do projeto que diz respeito muito particularmente ao mundo político: a criminalização do caixa 2. A reação é tão grande que ganhou um tratamento à parte – quase como se estivesse ali, de lado, precisamente para ser rejeitado. A prisão de Temer & Cia, no entanto, amplia o desconforto de congressistas em relação à matéria.

O principal opositor do projeto de Moro é, claramente, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que ironicamente vem a ser genro de Moreira Franco. Ele simplesmente tirou a proposta da pauta e não deve fazer muito esforço para vê-la na ordem do dia do Legislativo.

Toda essa animosidade pode trazer alguns entraves, também, para a votação da reforma da Previdência. O governo não se encontra nas articulações legislativas e ainda vê a perda de força popular das teses que abraça. Todo esse clima pode levar ao afastamento dos parlamentares da proposta de difícil apelo popular.

Quer dizer: o apoio pode até surgir. Mas também pode custar caro ao governo.
 

‘Previdência’ tem oposição no próprio quintal

Uma das mais duras cobranças relacionadas à proposta de reforma da Previdência dos militares surgiu de onde o governo Bolsonaro menos esperava: do próprio líder do PSL na Câmara, deputado Delegado Waldir (GO). Ele exigiu que o ministro da Economia, Paulo Guedes, vá ao Congresso explicar as reformas.

Segundo o deputado, a proposta de reforma dos militares foi “um abacaxi” que o governo criou. Se é assim, “tem que trazer a faca para ajudar a descascar” – disse. Delegado Waldir destaca que o projeto dá uma ideia de que há privilégio para os militares, e cobra que haja uma explicação consistente da equipe econômica a respeito.

É como se diz: quem tem amigo como esse, quem precisa de inimigo?

Oposição ganha fôlego contra reforma da Previdência


Jair Bolsonaro: desafio de aprovar a reforma da Previdência em um Congresso que vai mostrando resistências  (FOTO: Planalto / Divulgação

 

A oposição está conseguindo ganhar fôlego ante a proposta de reforma da Previdência. Como demonstração dessa trincheira contra as reformas, dois fatos merecem destaque. Primeiro, a decisão do PDT de fechar questão contra a proposta do governo, sem nem mesmo abrir para a possibilidade de discussão. Depois, a formação de uma Frente Parlamentar contra a reforma, que já reuniria 171 deputados federais e 27 senadores.

A expectativa inicial era que a oposição teria na Câmara o apoio de cerca de 150 deputados, o que ainda deixava uma margem bem ampla para a aprovação. Os números se saem, em uma oposição que deixa para lá convicções e necessidades (por exemplo, sem reforma os governadores terão muitos problemas) e se guia pelas diretrizes partidárias. O PDT é bem a tradução disso, já que vários parlamentares da sigla veem com bons olhos a proposta. Tanto que o deputado Mauro Benevides (CE) chegou a ser cotado para a presidência da Comissão Mista.

Ontem o tempo fechou mais um pouco com a articulação da Frente contra a reforma. Os números apresentados não são suficientes para barrar a proposta: como emenda constitucional, a matéria precisa de três quintos dos votos em duas votações em cada Casa. Na Câmara, isso quer dizer 308 votos – ou seja, a oposição precisa de 206 votos, para que o governo só possa chegar a 307. No Senado, há a necessidade de 49 votos, o que exige da oposição o apoio de 33 senadores, para que o governo só possa chegar a 48 votos.

Com 171 deputados e 27 senadores, isso quer dizer que a oposição não pode comemorar nada. Mas também quer dizer que o governo precisa se preocupar. E mais ainda agora, depois que a proposta de reforma da previdência dos militares foi encaminhada. Ela amplia a alíquota de contribuição (de 7,5% para 10,5%), o tempo de atividade (de 30 para 35 anos) e traz a taxação (10,5%) sobre as pensões recebidas por familiares. Tem mais: uma economia de R$ 100 bilhões em dez anos.

As lideranças no Congresso cobravam essa parte da reforma. Resta saber se ela gera mais tranquilidade que desconforto. Os próximos dias dirão se o complemento da reforma, com a mensagem sobre os militares, vai conseguir destravar a tramitação da proposta. Ou se vai entalar de vez.
 

Carreira militar será reestruturada

A ala militar do governo diz que a proposta de reforma previdenciária é um sacrifício para o setor, mas que isso não trará nenhum problema na tramitação da matéria. A corporação “entende muito bem o que é sacrifício”, disse o vice-presidente Hamilton Mourão. O vice tem sido a parte mais articulada das Forças Armadas dentro do governo.  E foi ele quem deixou bem claro que a corporação queria a reestruturação da carreira como compensação.

Parte dessa reestruturação já foi anunciada nesta quarta. Mas ainda deve vir mais, especialmente porque a mudança no tempo de atividade cria um problema: as promoções vão demorar mais. As vagas de cada patentes são limitadas e é preciso que, por exemplo, saia um coronel para que chegue outro. Em razão disso, a reestruturação pode passar pelo aumento das vagas por patente, mudanças nos interstícios entre diferentes postos ou a criação de novas graduações.

Essas mudanças serão um novo capítulo da discussão.

Previdência dos militares terá tramitação à parte

Bolsonaro: de retorno dos Estados Unidos, presidente recebe proposta de reforma da Previdência dos militares  (FOTO: Planalto / Divulgação)

 

A proposta de reforma da Previdência para os militares terá tramitação à parte. Foi o que garantiu o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Ele disse que haverá uma comissão especial própria para a proposta que o governo finaliza hoje para encaminhar para apreciação do Congresso.

Serão, portanto, duas comissões especiais: uma que vai analisar a proposta de Previdência geral e a que cuidará especificamente dos militares. As mudanças para o segmento militar ficaram delineadas em documento do Ministério da Defesa que foi apresentado nesta manhã ao presidente Jair Bolsonaro.

Agora a matéria vai para o Congresso, que esperava a proposta dos militares para dar curso à tramitação da proposta de previdência geral. Essa cobrança era feita pelas principais lideranças da Casa, em especial o presidente da Câmara, Rodrigo Maia: para ele, não poderia haver dúvidas sobre privilégios para nenhuma categoria, e isso só seria possível com o envio da matéria sobre os militares.

A proposta do governo para os militares não oferece grandes surpresas, tanto pelas negociações internas como atmbém pelo fato do segmento já esperar algumas mudanças que agora ganham corpo.

 

Tempo de Contribuição vai a 35 anos

É a mudança mais destacada: passa dos atuais 30 anos para 35. Mas não chega a gerar maiores discussões, nem dentro nem fora das Forças. Isso porque essa mudança já era esperada pelas lideranças militares desde o ano passado. A alteração evita casos muito comum de oficiais “pendurando o coturno” com pouco mais de 45 anos, exatamente quando chegavam ao algo da profissão. Essa modificação deve levar à reestrutação da carreira, já que as promoções internas têm limites de vagas – e mais tempo de serviço deixaria a espera pela promoção maior.
 

Alíquota de contribuição fica maior

A proposta muda a alíquota de contribuição dos militares, passando dos atuais 7,5% para 10,5%. Internamente, havia um certo desconforto. O entendimento é que os militares têm salários baixos e o aumento da alíquota significa um valor líquido ainda menor. Para contornar a reação, essa mudança não será de uma só vez: será feita progressivamente em cinco anos. Outro detalhe: a contribuição será cobrada também dos alunos de escolas de formação, hoje isentos.
 

Plano de saúde garantido

Os descontos fixos não se restringirão à alíquota previdenciária. O Ministério da Defesa propôs que o desconto total, após transição, chegue a 14%. Essa diferença cobre a pensão das filhas dos militares e também a cobertura do Plano e Saúde. Esse mecanismo foi uma saída para eliminar qualquer dificuldade na aceitação da proposta dentro das corporações.

Flávio Nogueira deve ‘dar adeus’ a indicação de cargo no INSS


Flávio Nogueira: PDT fechar questão sobre reforma da Previdência e afasta deputado dos cargos federais no Piauí  (FOTO: Câmara / Divulgação)

 

O PDT decidiu ontem fechar questão e vai votar contra a reforma da Previdência. A decisão reforça a posição do partido de Ciro Gomes como oposição cerrada ao governo de Jair Bolsonaro (PSL). A decisão deve ter efeito não apenas sobre as articulações em torno da reforma, mas no bloco que o governo pretendia formar com apoios diversos, espalhados pelas siglas. No Piauí, a primeira vítima deve ser o deputado Flávio Nogueira.

Mesmo filiado ao PDT, Flávio Nogueira vinha se colocando próximo à base de apoio do governo Bolsonaro. Ele participou da reunião da Bancada Federal do Piauí no Congresso, quando se discutiu a indicação dos ocupantes de cargos da União no Estado. No encontro, o pedetista chegou a apontar sua preferência, para o qual já tinha até nome: o comando do INSS no Piauí.

A definição das indicações era esperada pelos representantes do Piauí para a semana passada, com o entendimento de que o governo cobraria contrapartida com o apoio à reforma da Previdência. As indicações foram adiadas em razão de viagem do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzone, interlocutor com a bancada. No caso de Flávio Nogueira, a espera deve ter acabado ontem, diante da decisão do PDT de fechar questão. Com isso, o partido determina uma posição comum para os todos os integrantes de sua bancada no Congresso: votar contra a reforma.

Infiéis serão punidos
Para não deixar dúvidas sobre a decisão do PDT, a vice-presidente nacional do partido, Miguelina Vecchio, defendeu ontem que os parlamentares que votarem a favor da reforma da Previdência sofram duras punições internas. Ela tem até ideia do que pode ser: Miguelina sugeriu que os infiéis não devem ser beneficiários, por exemplo, com recursos do fundo partidário. "Temos que cortar na carne. Aqui, o que segue orientação do partido deve ter um tratamento e o que não o faz deve ter outro", disse.
 

Falta voto para aprovar reforma, diz Maia

O grau de apoio á reforma da Previdência preocupa aquele que vem se convertendo em sua principal fonte de apoio no Congresso – o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Ontem, Maia reconheceu que o governo não conta ainda com 320 votos para pensar em colocar a proposta em votação. Para aprovar, a proposta precisa ter 308 votos, mas Rodrigo Maia entende que deve haver uma margem de segurança, daí seu número mágico é o 320.

Maia vinha defendendo o nome de Mauro Benevides Filho, do PDT e ligado a Ciro Gomes, para presidir a comissão especial da reforma. Era uma estratégia para atrair votos na oposição. O fechamento de questão por parte do PDT funciona como um banho de água fria. É, assim, mais uma fonte de preocupação sobre o futuro da reforma da Previdência.

Empresário cobra foco do governo para aprovar reforma


Octavio Lazari: presidente do Bradesco cobra mais foco do governo para aprovar reforma da Previdência ainda este semestre

 

Há muita coisa em jogo em torno da proposta de reforma da Previdência. Isso faz crescer a pressão em diversas áreas. Por exemplo, de governadores sobre as bancadas federais de seus estados. Mas o chamado mercado – termo para identificar o segmento do grande empresariado – começa a perde a paciência. Essa impaciência se materializa não apenas nas oscilações da Bolsa ou na cotação do dólar. Ela ganha vida através do presidente de uma das maiores empresa do país, o Bradesco.

Octávio Lazari, presidente do banco, considera a reforma da Previdência crucial para o país. E pede foco do governo em geral e do presidente Jair Bolsonaro, em particular, para que a reforma seja aprovada. Em entrevista à Folha de S. Paulo, ele diz que é preciso “ter cuidado com as coisas que a gente coloca na rede social”. E coloca prazo para que a proposta seja apreciada pelo Congresso: até o fim deste semestre.

“Se isso não acontecer o mercado pode começar a questionar o quanto o governo conseguirá implantar da reforma. Em isso acontecendo, pode ter desdobramentos muito prejudiciais à economia brasileira”, afirma.

A curta paciência dos investidores não é bom sinal. Isso porque as andanças no Congresso não dão sinais de que a reforma esteja toda aprovada até o final do semestre. A expectativa é que a matéria seja apreciada na CCJ da Câmara dos Deputados até o final de abril, em seguida passando a uma comissão especial a ser criada. Somente depois disso é que irá para duas votações no plenário.

As projeções apontam, de forma otimista, para a votação no mês de junho – ou seja, praticamente o final do período legislativo que se estende até o recesso em meados de julho. Isso quer dizer que a matéria deve ser votada no Senado depois de agosto. Se o humor do mercado depende desse cronograma definido pelo presidente do Bradesco, teremos mal humor pela frente.
 

Governo define reforma para militares

Se o empresariado mostra impaciência, os congressistas mostram ansiedade. Mas há dois blocos de congressistas: um, formado pelos que querem saber qual a contrapartida que terão pelo apoio à reforma; outro, com os que pedem uma definição mais clara e ampla sobre a proposta, inclusive no que diz respeito aos militares.

O governo promete para esta quarta-feira o detalhamento das mudanças em relação aos militares. O presidente Jair Bolsonaro já disse (através do Twitter, naturalmente) que haverá mudanças e que “possíveis benefícios ou sacríficios, serão divididos entre todos, sem distinção de postos ou graduações”. O provável é que os militares passem a ter tempo mínimo de contribuição de 35 anos, contra os 30 atuais.

Os congressistas esperam essa definição, para não se passar a ideia de que há setores privilegiados.

Mesmo com Lava Jato, velha política predomina


Pleno do STF: decisão sobre caixa 2 foi considerada uma grande derrota para a Java Jato, que completa 5 anos hoje  (FOTO: STF/Divulgação)

 

Na semana que passou, a Lava Jato sofreu uma dura derrota – a mais expressiva em seus cinco anos de atividade, completados hoje: viu o Supremo Tribunal Federal decidir, em votação apertada, que os crimes de caixa 2 mesmo associados a outros delitos, podem ser julgados pela Justiça Eleitoral. O entendimento da Java Jato é que o caixa 2 é só a ponto de um enorme iceberg chamado corrupção, e que se alimenta da troca do apoio na campanha com as “ajudas” no mandato do eleito.

Ao relegar à condição de simples delito eleitoral, o STF dá a possibilidade de punições mais brandas, onde se esfuma a perspectiva de prisão do envolvido. Os políticos (e não só os “das antigas”) comemoraram.

Esse severo golpe contra a operação ganha contornos mais nítidos com os dados revelados neste final de semana por pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas: a realidade de que as traquinagens nas licitações – caminho para a corrupção – não mudou em quase nada após a Lava Jato. “Posso garantir que, para a imensa maioria das licitações, nada mudou”, declarou a O Globo o pesquisador Carlos Ari Sundfeld, da FGV.

Dito de outra forma: a nova política, que era esperada depois de tanta falcatrua revelada, segue firme e forte. E dando as cartas, sobretudo nos estados e municípios.

Os estudiosos mostram que a Lava Jato conseguiu produzir resultados importantes com a Lei das Estatais, apontada como avanço significativo no combate à corrupção. É um reflexo direto do “Petrolão”, o esquema que sugou dezenas de bilhões de Reais da Petrobrás, que é o centro das revelações da Lava Jato. Mas, fora das estatais, a realidade é quase a mesma de sempre.

Na linguagem popular: segue a prática das licitações com cartas marcadas e troca de favores entre políticos e empresas prestadoras de serviços ao Estado. Ou seja: a velha política é a dona do pedaço. Exatamente como denuncia a Lava Jato há cinco anos.
 

Renovação é de faz-de-conta

Em reportagem especial do final e Semana, o jornal O Globo mostra a presença dos chamados políticos profissionais nas Assembleias Legislativas, Brasil afora. Os piauienses não estranham essa realidade. Aqui a renovação é pequena, e quando acontece é por herdeiros ou políticos de larga trajetória. Entre os "novatos", temos ex-prefeitos de dois mandatos (Francisco Costa), filho de prefeito (Oliveira Neto) ou primeira-dama de quarto mandato (Lucy Silveira). Confira:

• 9 mandatos: Fernando Monteiro e Themístocles Filho.
• 8 mandatos: Wilson Brandão.
• 5 mandatos: Hélio Isaias, João Madison e Nerinho.
• 4 mandatos: Fábio Novo, Flora Izabel, Gustavo Neiva e Marden Menezes.
• 3 mandatos: Evaldo Gomes e Flávio Nogueira Junior.
• 2 mandatos: Dr. Hélio, Fábio Xavier, Firmino Paulo, Georgiano Neto, Janaína Marques, Júlio Arcoverde, Limma, Pablo Santos,
   Pastor Gessivaldo, Severo Eulálio e Zé Santana.
• 1 mandato: Cel. Carlos Augusto, Dr. Francisco Costa, Franzé Silva, Henrique Pires, Lucy Silveira, Oliveira Neto e Teresa Brito.

Atos contra miscigenação recuam o mundo 150 anos


Ku Klux Klan: grupo supremacista branco recobra força com esdrúxula crença de que negros não têm direito sequer a iguais direitos civis

 

Ao cometer um ato contra uma mesquita na Nova Zelândia, o australiano Brenton Tarrant deixou 49 mortos e igual número de feridos. Branco, também deixou um manifesto de 73 páginas onde brada contra a miscigenação e cita até o Brasil, como exemplo de país fraco muito em razão da mistura de raças. O brado de Tarrant não é novo: ele foi muito em voga no final do século XIX, alarmando os europeus e até provocando no Brasil uma “campanha de branqueamento”. Além do ato em si, é estarrecedor ver esse discurso ganhar ressonância e recuar o mundo em mais de um século.

Há cerca de 150 anos, a mistura de raças se mostrava mais forte, saindo das relações escondidas de dominação do branco para as relações “normais”, em casamentos formais. Na Europa, isso produziu pânico, na crença de que tal mistura poderia gerar a degeneração da sociedade do Velho Continente. Esse pensamento exdrúxulo reverberou por aqui e após a Abolição houve uma preocupação muito grande com o branqueamento da raça.

Havia o sentimento de que a raça branca era superior e que a mistura das raças geraria o natural branqueamento: o "sangue forte" prevaleceria. Virou política de Estado, que durou até por volta de 2014. O estímulo à migração de brancos europeus ia além da inenção de fortalecimento da produção e ocupação de espaços do vasto Brasil. Também era um estímulo ao branqueamento.

É curioso que haja hoje quem pense nessa mesma linha, tal como revela o manifesto de Tarrant e uma série de outros acontecimentos e movimentos ao redor do mundo. O resultado do Brexit é filho desse sentimento. E é estarrecedor ver a Ku Klux Klan – movimento supremacista branco – recobrar forças nos Estados Unidos. A KKK protagonizou episódios como um da década de 60 que resultou no filme Mississipi em Chamas, e até hoje acha que negro nem deveria ter direitos civis iguais aos brancos.

Figuras como Donaldo Trump ajudam a fortalecer esse tipo de discurso que, além de fora de moda, é completamente desprovido do censo de humanidade.
 

Mistura traz criatividade e resultados

Qualquer pesquisa revela: a mistura traz bons resultados. Mistura de homens e mulheres. Mistura de raças. Empresas como o Google são muito tradutoras disso: as visões diferentes não afastam; somam e permitem soluções mais complexas e criativas. Também estudos sobre as empresas mostram que corporações que mesclam homens e mulheres em suas esferas de comando são mais ágeis nas reações e mais flexíveis nos momentos críticos.

Também não faltam exemplos para mostrar que as comunidades – cidades, estados, países – com maior mistura entre nativos e migrantes são mais prósperas. Os Estados Unidos, os donos da KKK, revelam o que o Klan não gostaria de evidenciar: o sucesso do país passa em boa medida pelas origens tão díspares de seus habitantes.

Suzano reabre debate sobre porte de arma: um único revólver, 8 mortos


Rodrigo Maia: presidente da Câmara critica possibilidade de se discutir agora flexibilização do porte de arma  (FOTO: Câmara / Divulgação)

 

A tragédia de Suzano provocou todo tipo de reação: comoção, dor, revolta e, para lembrar que estamos em um Brasil cada vez menos racional, as briguinhas políticas de sempre. Também teve reação ponderada, como os que trouxeram de volta a discussão sobre a oportunidade ou não de se colocar em pauta temas como a flexibilização do porte de arma e a revisão da maioridade penal.

 A comoção, a dor e a revolta são reações que podemos considerar óbvias, diante de mais uma tragédia em um ano que espalha tragédias mundo a fora, com especial atenção ao Brasil. As briguinhas, em que tudo termina na politização simplista, tentou colocar no recém-iniciado governo esse episódio que acabou em 8 mortes. Ainda que o governo tenha problemas sérios e muitas explicações a dar, esse tipo de argumento só cabe nos que não debatem seriamente o problema do país, mas apenas raciocinam como massa de torcedores que gostariam de ver seu time campeão nem que seja com um gol roubado aos 48 do segundo tempo.

Não é assim que se constrói uma nação.

Felizmente apareceram os que colocam o dedo na ferida como deve. Uma dessas vozes (neste caso, inesperada) foi o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Apesar de representante do estado do Rio de Janeiro – onde a tese de armar o cidadão é muito forte –, Rodrigo alertou para o risco de se flexibilizar o porte de arma. Para ele, seria “uma barbárie”.

Certamente não é uma posição majoritária em certo segmento político. Mas mostra que o debate ganha um novo tom e pode alterar a perspectiva futura sobre o tema. Até bem pouco, a flexibilização do porte de arma defendida pelo governo era vista quase como favas contadas. Vozes como a do presidente da Câmara apontam para um caminho que pode não ser tão fácil.

Essa voz ganha ressonância em outras áreas além dos tradicionais especialistas que criticavam a flexibilização. Claro, há os que seguem fortalecendo o discurso a favor da mudança, como o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Para ele, arma e carro representam o mesmo risco. Não é um argumento poderoso. Ao contrário: é um argumento que tira força do movimento pela flexibilização.

As diferenças de falas não mostram o destino da discussão. Mas deixa claro que o debate está reaberto, e em nova dimensão.
 

Tragédia retoma repete politização simplista

O caso de Suzano, uma tragédia com 8 mortos, repete o clima de politização simplista que tomou conta do país nos últimos anos. Os governistas apontaram para a necessidade de um novo Brasil, com a tal da nova política – o que significa a condenação da política de antes. E os oposicionistas, os políticos de antes, apontaram para o governo atual.

Não há argumento consistente, de parte a parte. Só há torcida – contra ou a favor. É razoável observar que um governo com dois meses e pouco de gestão não seja o responsável. Também é razoável apontar o passado, mas um passado amplo, de séculos de sedimentação da cultura da violência. E aí vale apontar para ex-governos, ex-deputados, ex-senadores – os de ontem, de anteontem e os de antes de anteontem.

Traduzindo: ninguém escapa de ser apontado por tragédias como essa, que vão se repetindo. E porm isso mesmo, é hora de um debate consistente.

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