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Política de segurança é dinheiro jogado fora, diz pesquisador

O Piauí comemorou ontem um dado horrível: o índice de 20,9 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes. Foi festejado por ser o menor do Nordeste, embora o número seja o dobro do patamar que a Organização Mundial de Saúde toma como indicador de “epidemia de homicídios”. A festa feita pelo Piauí talvez seja o tipo de argumento que respalda o pesquisador Daniel Cerqueira, do IPEA, órgão responsável pelo Atlas da Violência. Na avaliação de Cerqueira, a política de segurança no Brasil é dinheiro jogado fora.

O pesquisador do IPEA tem várias razões para fazer esse diagnóstico. O mais óbvio: o Brasil é recordista mundial em violência letal. O País concentra 14% dos homicídios do planeta, conforme os dados de 2017. E apesar da redução do número de mortes violentas no primeiro semestre deste ano, continuamos como o país com o maior número bruto de homicídios. Daí a conclusão de Cerqueira: nossa política de segurança é ineficiente. E isso quer dizer que estamos jogando muito dinheiro fora.

Quando os secretários de segurança se reúnem, em geral reclamam da falta de verba. Mas esse não parece ser o problema. Em entrevista a O Estado de S. Paulo, Daniel Cerqueira observa que o Brasil gasta 1,4% do PIB em segurança. “É mais ou menos a mesma média dos países da OCDE”, ressalta. Para ele, claramente, o dinheiro é gasto “em ações que não geram redução do crime. É tudo feito na galega, na improvisação”.

Poderíamos acrescentar: tem muito jogo de cena, perfumaria e espetáculo, com direito a exibição armada ou coisa do tipo. O que fica? O espetáculo.
 

Falta inteligência

Daniel Cerqueira ressalta que a apolítica de segurança no Brasil ainda é muito vinculada à ideia de policiamento ostensivo, com armas em punho e viatura nas ruas. Isso quer dizer que um fato fundamental é deixado de lado: a polícia inteligente. “E esta [inteligência] é fundamental, como já mostraram outras grandes cidades”. E reafirma: “Jogamos dinheiro fora com um modelo falido“.

Mas Cerqueira vê luz no fim do túnel. Ele acredita como possíveis ações com resultados positivos. E cita as cidades de São Paulo, Brasília e Campo Grande, que lideram a lista dos municípios menos violentos. A razão? “[São] políticas permanentes comprometidas com a vida das pessoas, aplicadas e passadas de um governo ao seguinte. Uso da inteligência para focar as ações e gastos. Foi o que se viu nessas cidades, no Espírito Santo, na Paraíba”, disse na entrevista.

Aí está a lição para não se jogar dinheiro pela janela da viatura.