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Acordo vai enterrar Lava Jato de uma vez por todas

A Lava Jato nunca esteve tão ameaçada e a decisão do Supremo Tribunal federal, que deve levar à anulação de boa parte das condenações a partir da operação, parece ser o golpe de misericórdia nessa ação que revelou o Brasil como a “República dos Esquemas”. A decisão tende a ser a par de cal na Lava Jato. E a proteção de boa parte da elite política, tanto alguns nomes condenados como de outros ameaçados pelas investigações que ainda não chegaram a se materializar em julgamentos.

O resultado parece também dar razão ao ex-deputado Márcio Moreira Alves, para quem os escândalos no Brasil sempre terminam em um acordo de elites que empanam as causas e eliminam as punições. Para que o leitor recorde: Moreira Alves era deputado federal quanto, em setembro de 1968, fez um duro pronunciamento na Câmara contra as truculências da ditadura. As Forças Armadas pediram autorização para processar o deputado. A Câmara não autorizou. E o governo Costa e Silva aproveitou esse fato como argumento para editar o AI-5.
 

Estados Unidos x Brasil

Márcia Moreira Alves estava na primeira lista de cassado à luz do AI-5, o mais duro instrumento legal já produzido aqui para dar amparo à repressão. Já nos anos 90, o ex-deputado era convidado a comparar o Brasil do impeachment de Collor com os Estados Unidos do quase-impeachment de Nixon. Ele disse que a grande diferença era que, nos Estados Unidos, um escândalo costumava ser seguido de duras punições, enquanto no Brasil tinha como conseqüência um acordo de elite que protegia os envolvidos.

A Lava Jato destapou um mundo de escândalos – no somatório e com sobra, o maior escândalo de corrupção em um país democrático. Bateu em cheio na elite política e empresarial. E, desde sempre, desagradou meio mundo. Por isso, desde sempre apanha, gerando subprodutos terríveis, ameaças para a própria democracia, como a tal Lei do Abuso de Autoridade – que de fato limita a ação policial ou judicial contra autoridades.

Agora vem a pá de cal. As condenações devem ser anuladas aos montes. E muitos com contas a pagar sairão livres – e talvez até cobrando ressarcimento à Nação.
 

Acordo na elite política

O resultado da votação no STF, que permite anular condenação na Lava Jato, estava desenhado. O desfecho foi antecipado por diversos veículos – desde Estadão a Crusoé. E tem o aval das principais lideranças políticas instaladas em Brasília, nos três poderes. Teria o empenho principal do próprio Dias Tofolli, presidente do Supremo, de onde a decisão sai e reverbera. Tofolli é a favor da decisão, conforme manifestou ontem.

Tofolli fala de onde deve: ao manifestar um voto. Mas a movimentação não para nele. O desmonte da Lava Jato também tem o empenho entusiasmado dos presidentes das duas casas do congresso, Rodrigo Maia (Câmara) e Davi Alcolumbre (Senado). Da mesma forma teria o empenho de lideranças do Executivo, incluindo o núcleo duro próximo ao presidente Jair Bolsonaro.

Nada mais parecido com a leitura de Márcio Moreira Alves.