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Caso do ‘óleo na praia’ expõe força das fake news

O caso das manchas de óleo que alcançam os 9 estados do Nordeste expõe a força das fake News e a propensão à pós-verdade. Também mostra que a crença cega e a tendência de espalhar falsas informações – isto é, mentiras – não é território exclusivo de ninguém. Todos estão no mesmo barco, à direita, à esquerda e ao centro.

Desde que as manchas começaram a aparecer há cerca de um mês, as “verdades” pronta e acabadas foram logo surgindo. E sendo multiplicadas, através da distribuição incessante de tais versões que muitas vezes podem não ter sequer nexo com o fato. A senha para as mentiras se multiplicarem foi uma palavra: Venezuela.

Suspeitas indicavam que navios petroleiros oriundos da Venezuela poderiam ser responsáveis pelo óleo que estava chegando às praias nordestinos. A suspeita não tinha nenhum teor de acusação, tão somente à possibilidade de um acidente, infelizmente muito comum nesse setor da economia. A palavrinha acendeu os dois lados do Brasil – os governistas e os não-governistas – divisão que já dura há alguns anos e se resume a um apontar o dedo para o outro, sem maiores preocupações com os argumentos.
 

Ao invés de fatos, versões

De um lado, os governistas de hoje – defensores do governo Bolsonaro – apontaram para os não-governistas, que vão bem além dos petistas. Os aliados do governo atual logo enxergaram motivação criminosa, vendo o óleo derramado como ação deliberada dos “comunistas” da Venezuela. Haja fantasia.

Mas o outro lado não deixou por menos, também com versão fantasiosa: os críticos do bolsonarismo cuidaram de tomar como versão pronta e acabada a ideia de que o óleo vinha de um navio alemão naufragado em 1944 –  e isso faria do governo um farsante. O óleo estaria brotando agora, e espalhando manchas desde o Maranhão até a Bahia. Pouco importava a informação de pesquisadores da UFCE, lembrando que os artefatos ligados ao navio alemão SS Rio Grande são conhecidos há um ano e meio, froam encontrados em pequena quantidade e não brotam óleo como o das praias.

Mas isso é só um detalhe: o fato não importa, e sim a versão.


O meio ambiente fica esquecido

Nessa questão toda, o fundamental está sendo esquecido: o impacto ambiental do óleo que aparece nas praias. Essa discussão não existe. Vá lá que aqui na parte mais a norte (Maranhão, Piauí e Ceará), as manchas não têm gerado tanto assombro. Mas nas praias de Alagoas, Sergipe e Bahia a coisa é diferente. Nesses estados, alguns santuários ambientais estão sendo ameaçados. A própria foz do Rio São Francisco recebe quantidade preocupante de óleo.

Para completar, as manchas causam outro estrago: muitos turistas que tinham como destinos áreas de praias próximas aos locais das manchas estão cancelando as reservas. Em tempos de crise econômica, é um baque a mais. E um baque nada desprezível.

O que se espera mesmo é que as investigações andem rápido. E que possam encontrar – com nomes bem definidos – os responsáveis por esse grave acontecimento. Sem fantasia.