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Cidades do Piauí pedem asfalto antes do esgoto

Os dados são terríveis: segundo o IBGE, nada menos que 93% das casas no estado Piauí carecem de um serviço essencial, no caso a coleta de esgoto. Os números são referentes ao ano de 2018 e colocam o Piauí na posição de estado com menor cobertura de rede de esgoto, com um índice que chega a ruborizar até mesmo o Nordeste, detentor de uma marca horrível (53% de casas sem cobertura), mas ainda assim muito melhor que os números daqui. Tem mais: estudos mostram que ausência de saneamento básico significa presença de doenças. Em cinco anos, as doenças resultantes da falta de saneamento consumiram R$ 1 bilhão do dinheiro do SUS.

Apesar disso, o asfalto continua chegando nas cidades antes do esgoto e até mesmo de uma razoável coleta de lixo. Os prefeitos não pedem esgoto ou limpeza. Pedem asfalto. Tanto que esse tipo de ação ganhou status no discurso político: é associado a fortalecimento de infraestrutura e mobilidade urbana. Em Franca (SP), a cidade brasileira com melhor saneamento básico, o asfalto chegou depois, quando chegou.

Aqui a lógica parece traduzir uma velha máxima: esgoto fica enterrado; não dá voto. E todo mundo está atrás de voto.

Teresina tem índices diferentes da média do Estado, mas não foge à regra geral. Em cinco anos, Teresina investiu R$ 47,57 milhões em saneamento básico. O IBGE calcula que o investimento per capita/ano foi de pouco mais de R$ 11,00. Aqui, segundo leitura de dados feita pelo Instituto Trata Brasil, somente 23,5% das residências têm saneamento básico – o que deixa a descoberto mais de três quartos das moradias da capital teresinenses, sem adequado serviço de abastecimento de água potável, coleta de lixo e esgoto, limpeza das ruas e manejo das águas das chuvas.
 

Saneamento não é nem promessa de campanha

O debate sobre o saneamento básico não encanta nem a esfera estadual nem a municipal. E as campanhas eleitorais traduzem bem essa falta de compromisso: propostas relacionadas ao saneamento básico às vezes aparecem apenas de forma protocolar, mais ou menos como os temas ambientais. E os compromissos após a eleição parecem confirmar a falta de prioridade dessa área. O setor de moradia é bem revelador: faz-se o conjunto sem um pensamento sobre coleta de esgoto. Para completar, falta limpeza e coleta de lixo, bem como manejo das águas das chuvas.

A campanha municipal desse próximo ano deve repetir as anteriores: as propostas sobre saneamento serão um detalhe nos programas eleitorais; para inglês ver. No caso de Teresina, deve haver alguma discussão sobre a galeria da Zona Leste – que espera mais de 25 anos para se materializar. E talvez uma parte empunhe o discurso tipo “vamos passar de 50% de cobertura” de esgoto. É uma fala que se arrasta há uns dez anos sem mudar a realidade em que apenas um quinto das casas tem esse serviço essencial. Além da demora do discurso se tornar realidade, ainda há um outro detalhe: 50% de cobertura não chega sequer à média do Nordeste. É pouco. Muito pouco.