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Bolsonaro governa só para um terço, diz cientista político

O presidente Jair Bolsonaro vai se convertendo no primeiro mandatário brasileiro a governar para só e somente só um terço da população. É o que diz o cientista político Marcos Nobre, uma referência no setor e presidente de outra referência, o Cebrap – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. O entendimento de Nobre consolida uma já ampla visão sobre o governo Bolsonaro e aponta essa como uma tendência da nova maneira de se fazer política.

Pode-se dizer que, em todo o mundo, o jeito de fazer política mudou. E mudou muito. Não se busca mais o centro, e sim os extremos – o que justifica vitórias eleitorais como a de Trump (nos Estados Unidos), movimento 5 Estrelas (Itália) e Bolsonaro, aqui no Brasil. Outra diferença: no governo, essas lideranças não abraçam o “agora sou presidente de todos”. Seguem com uma gestão para poucos, fortalecendo o grupo de ligação direta. Outra vez Trump e Bolsonaro são modelos desse novo jeito.

No caso de Bolsonaro, há talvez um agravante: ele não apenas governa para um terço como também governa contra os outros dois terços. Os episódios mais recentes – o vídeo atacando o STF e outras instituições ou a “live” destemperada de ontem – mostram que o presidente fala para os seus, e tão somente para os seus, criando embaraços inclusive para futuras pretensões políticas. Essa reflexão futura cabe em razão de outra afirmação de Nobre: o presidente antecipou a eleição de 2022.

Na avaliação do cientista político, Bolsonaro cuida de ter a base para 2022, e ela corresponde a esse um terço. Mas, ante as brigas que acumula, pode estar acumulando animosidades na eventual busca de reeleição: teria alguma dificuldade de agregar em um segundo turno, tantas são as arestas que contabiliza.
 

Flávio, a ‘serenidade’ ausente

A análise de Marcos Nobre sobre o governo Bolsonaro inclui uma reflexão sobre o núcleo duro do bolsonarismo, em especial a influência dos filhos. Para o presidente do Cebrap, os filhos têm influência. E diz que, dos três, o mais capaz de diálogo é Flávio. Seria o "sereno" da turma. Mas ao se tornar investigado por conta do esquema da “rachadinha”, perdeu o foco e a força. Pior para o presidente, que viu crescer a influência de Carlos.

Carlos é o mais emocional e reativo de todos, com uma estabilidade emocional bem própria das redes sociais, tema que dizem ser sua principal área de conhecimento. Daí, o que se vê é um Bolsonaro em ritmo de rede social, tanto na ocupação do debate quanto no estilo das aparições. A “live” da terça-feira à noite foi um bom exemplo desse estilo guiado pelo fígado, não pelo cérebro.