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Para não esquecer: o AI-5 foi o pior instrumento da ditadura

A família do presidente Jair Bolsonaro parece mesmo ter um exercício predileto: dizer o que vem na telha sem fazer o menor cálculo dos efeitos do que se diz. Não se pode dizer que os membros do clã diz o que diz sem pensar, porque certa linha de fala é bem consistente, uma delas a defesa de atos autoritários e governos de exceção. Mas está claro que não o clã não se dá ao luxo de pensar nas consequências, tantas são as vezes que alguma declaração vem seguida de um pedido de desculpas.

A última foi do deputado Eduardo Bolsonaro, aquele que quase vira embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Ele cometeu o excesso (e bota excesso nisso!) de admitir a possibilidade de edição de algo como o Ato Institucional número 5, o famigerado AI-5. Vale lembrar: o AI-5 foi editado em dezembro de 1968 pelo general Artur da Costa e Silva, o segundo dos cinco presidentes da ditadura. Vale também lembrar um dos argumentos utilizados na noite que decidiu pela criação do ato: “Às favas os escrúpulos”.

A frase é bem uma síntese do que foi o AI-5: o mais brutal instrumento da ditadura, um regime que é brutal por princípio – mas que neste caso se esmerou em ser cruel. O AI-5 deu a capa legal para as maiores brutalidades: fechamento do Congresso, censura, tortura, cassação de políticos e não político, expropriação de empresas de simples mortais que pouco ligavam para a política, perseguição a estudantes que apenas ousavam sussurrar o que não cabia no ouvido da ditadura, etc etc.

Que alguém sai em defesa de um instrumento tal, já é um enorme absurdo. Que um parlamentar com mandato popular – portanto, que tem compromisso com a Democracia –, é um absurdo ainda maior. Que esse deputado quase-embaixador seja filho do presidente, aí então...
 

Eduardo Bolsonaro fala para poucos

O clã Bolsonaro tem adotado a estratégia de falar para seu “um terço” de seguidores. E tem se lixado para os outros dois terços. Após a fala em que na prática legitimou o AI-5, Eduardo Bolsonaro foi muito além da polarização tão ao gosto da política atual. Desta vez, atropelou a linha do razoável. E viu reações de todo tipo. E de todo lado. Até o próprio pai teve que caracterizar a declaração como descabelada. “Um sonho”. Ou, em se tratando de quem se trata, um pesadelo.

Eduardo falou para poucos. Até mesmo ministro militares disseram, entre as paredes palacianas, que a declaração é “uma loucura”. Os aliados do clã calaram-se, o que pode ser lido com um envergonhado “não concordo”. Fora do Brasil ninguém entende tais declarações. Mas a fala está aí, talvez a traduzir o exercício mais cultivado entre os Bolsonaro: dizer o que vem na telha sem fazer a mínima avaliação sobre as consequências.