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Lula está prestes a sair da prisão. O que vem depois?

O ex-presidente Lula está prestes a deixar a prisão após um ano e meio recolhido às dependências da Polícia Federal, em Curitiba. Pelo que se ouviu do próprio Lula, não queria sair. Mas terá, especialmente com o desmonte da Lava Jato. E, ao voltar, não vai atrás dos netos. Vai voltar à política direta, discursando Brasil afora e reafirmando sua narrativa própria. Os primeiros avisos dizem que abraçará o discurso da conciliação. Difícil de se sustentar, tanto pelo ex-presidente quanto pelos petistas e antipetistas – o que deixa no ar uma enorme pergunta sobre o que acontecerá a partir da soltura.

É preciso deixar claro que Lula em nenhum momento deixou de fazer política, muito menos de dar as cartas no PT. Um exemplo: não há a menor dúvida sobre a eleição para a presidência do PT. Será Gleisi Hoffmann. Porque Lula decidiu e está decidido. Nenhuma novidade nisso, porque as principais bandeiras e o tom usado pelos petistas têm a interferência direta de Lula: foi ele quem abraçou antes de 2014 o “nós contra eles” e que determinou a radicalização do discurso de Fernando Haddad, em 2018, avaliando que aquela campanha não tinha lugar para o centro.

Lula vai sair da cadeia como entrou: um animal político que pensa em política 24 horas por dia. Mas não deve discursar sem contradito. Nessa nova etapa, terá velhos e novos embates. Vai querer se afirmar e reafirmar como o anti-Bolsonaro, além de assentar o papel de mártir. Sim, porque Lula cultiva bem o seu papel de mito. Mas desta vez terá que ouvir a discordância de ex-aliados, ressentidíssimos pela fritura que sofrerem do próprio líder petista. O nome mais evidente desta lista é Ciro Gomes, que tenta um lugar ao sol da política atual sendo contra ambos, Lula e Bolsonaro.

E vale sempre ressaltar a possibilidade dos confrontos políticos descambarem para um cenário ainda mais contrastado e inclusive violento.
 

O risco da violência é real

Ao sair da prisão, Lula sairá pelo Brasil reafirmando-se como o mito e o mártir. Mas não estará só. A tendência é que em cada lugar que chegar, será recebido por duas vozes: a favorável e a contrária. Não será uma caminhada tranquila e o ex-presidente deverá ter saudades da “caravana da cidadania” de 1992, quando transitava sem sobressaltos. A tentativa de reedição da “caravana”, no final de 2017 e início de 2018, já deu uma mostra do clima modificado. Nos próximos meses, deve ser pior.

Os analistas enxergam a tendência ao aprofundamento da polarização, ou do discurso ainda mais extremado. Isso deve aumentar a possibilidade do embate político esquecer de vez o pouco que ainda resta de ideias e propostas. A chance dos confrontos terem desdobramentos físicos não é nem um pouco desprezível. A contrário, é muito palpável. Não custa lembrar, tanto o time de Lula quanto o de Bolsonaro é movido a paixão. E paixão não costuma contar até dois.