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Bolsonaro vai se entregando ao pragmatismo

O discurso marcadamente ideológico empunhado na campanha ainda persiste. Mas o governo Bolsonaro vai aos poucos mostrando que dá lugar ao pragmatismo, deixando de lado o tom engajado e sectário. Esse tipo de mudança pode ser medido na relação com o Congresso, sobretudo em votações cruciais como a reforma da previdência. Nesses momentos pode-se anota os sutis afagos com as tradicionais lideranças da Câmara e Senado, contrariando o programa anti-política tão alardeado nos palanques e nas redes sociais, ano passado.

Mas o que vai mostrando que o pragmatismo ganha importante espaço nas ações do governo é a pauta externa. Aí a diferença é enorme. Vale lembrar: na campanha, o discurso era flagrantemente a favor dos Estados Unidos e de Israel, deixando em um lugar menor países como a China e a ampla comunidade árabe. Até mesmo o Mercosul era tratado com certo desprezo. Esse tom pautado pelo fator meramente ideológico foi dominante nos primeiros meses de governo. Não é mais.

O encontro dos BRICS, em Brasília, vai mostrando a outra face do governo. Ou melhor: vai mostrando que o presidente começa a superar o candidato – ainda que o presidente siga candidato, já de olho de 2022. No encontro dos BRICS, Bolsonaro ressaltou a intenção de ampliar relações com os parceiros de bloco (para lembrar, BRICS é referência aos emergentes Brasil, Rússia, Índica, China e África do Sul). E foi mais: logo no primeiro dia assinou acordo com a China, dizendo que o país asiático fará, cada vez mais, parte do futuro do Brasil.

No mês passado, já tinha visitado à própria China e países árabes. Tudo em nome das relações comerciais do Brasil, que tem na China seu principal parceiro e, nos árabes, um importante comprado de diversos itens de nossa pauta de exportação.
 

Teresa Cristina no lugar de Ernesto Araújo

No início do governo, uma das vozes mais ouvidas era a do ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Ele bradava a favor de Israel e Estados Unidos, e até alfinetava China e países árabes. A voz de Ernesto foi desaparecendo. Foi silenciada sobretudo pelas ações (discretas mas incisivas) de uma colega de ministério: Teresa Cristina, a ministra da Agricultura. Sem alarde, ela mostrou o peso desses países na pauta de exportação do país.

Ainda no calor das declarações de Ernesto Araújo e da viagem de Bolsonaro a Israel, a ministra reuniu embaixadores dos países árabes. E levou o próprio Bolsonaro a fazer afagos nos velhos parceiros. Está levando a melhor. Com isso, está levando o governo a pensar menos no discurso e mais nas relações produtivas para o país.