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PT tenta se reconectar e foca nas redes sociais

Desde que deixou a prisão, Lula está no mundo. Mesmo inelegível, quer ser “o megafone da oposição” e se firmar como o anti-Bolsonaro. Mas descobriu rápido que a tarefa será mais difícil do que imaginava. A empolgação não é a esperada e as reações maiores que as calculadas. Além do mais, há outras vozes. E está cada vez mais claro que há outros espaços de afirmação política, que inclui as relações com segmentos consolidados, com lideranças políticas e novos canais de comunicação.

As andanças que Lula faz pelo Brasil tentam repetir a Caravana da Cidadania, de 1992 e 1993, que preparava is eleitores para a campanha do petista em 1994. A “caravana” pós-Lava Jato e Mensalão tem outra receptividade, o que se agrava em função do clima extremado vivido pelo país desde antes de 2014 e mais ainda depois de 2018. O “nós contra eles” que Lula abraçou há mais de cinco anos, agora não tem dono: todo mundo está nessa toada que cria um mero clima de torcida.

E o PT descobriu que perdeu a liga com setores consolidados – um deles, que Lula foi buscar com muito cuidado em 2002, é o evangélico. Também não traduz mais o sentimento de “a esquerda”. Tem o reforço do PCdoB e do PSTU, mas vê vozes contrárias de nomes importantes instalados, por exemplo, no PDT e PSB. Para completar, perde a afinação no setor da comunicação. Lula quer sua turma nas redes sociais. Ontem mesmo ele estava no Twitter, talvez reverberando uma fala sua: foi o próprio petista quem afirmou que “a direita aprendeu a usar melhor” as redes sociais.

Talvez não seja essa a questão. Todo mudo sabe usar as redes sociais, até porque está cheio de profissionais disponíveis. Mas alguns discursos caem mais no gosto de certos setores, que o transformam em mais um grito, daqueles entoados nos estádios, pelas torcidas.
 

Todo mundo quer ser anti-Bolsonaro

A estratégia do PT é clara: ser o anti-Bolsonaro, revertendo o jogo que fez de Jair Bolsonaro o anti-PT da eleição passada. As lideranças nacionais petistas que andam Brasil afora deixam claro o desejo de nacionalizar a próxima eleição, transformando-a em um plebiscito contra o atual governo. Isso porque está claro que o governo fala para um terço do eleitorado. Mas exatamente por isso vem o problema: todo mundo quer ser o anti-Bolsonaro que vai discursar para os outros dois terços.

O primeiro a se distanciar do presidente foi o governador de São Paulo, João Dória, o mesmo que em 2018 inventou o “Bolsodória” para surfar na onda do então candidato do PSL. Em seguida foi a vez de Wilson Witzel, o governador do Rio, também eleito em boa medida pela onda bolsonarista. Ciro Gomes é um caso à parte: quer ser ao mesmo tempo anti-Bolsonaro e anti-Lula.

Seja como for, tem muita gente de olho nesses dois terços. E o PT vai ter que se rebolar para ser “o outro” preferencial.