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Doria leva PSDB para a direita e tenta acolher ‘órfãos de Bolsonaro’

O PSDB vai sacramentar neste sábado a maior mudança ideológica do partido desde que foi fundado há 31 anos. Sob a matuta do liberalzão João Doria Júnior, o partido dá uma quinada definitiva para a direita e tenta criar o cenário para que o próprio Doria se viabilize como candidato à presidência da República em 2022, precisamente se apropriando dos “órfãos” de Jair Bolsonaro. Doria vai tentar se credenciar junto ao amplo eleitorado que vai do centro até a direita hard.

Os movimentos de Doria são bem explícitos. Primeiro, abriu uma frente de confronto com Bolsonaro, criando embates que são mais de forma que de fundo. Passo seguinte, acolheu bolsonaristas de primeira hora, como o deputado Alexandre Frota, o empresário Paulo Marinho e o advogado Gustavo Bebbianno, que começou janeiro como um dos ministros fortes do novo governo e desembarcou do Planalto após confronto com o clã Bolsonaro.

Doria procura se credenciar como o anti-Bolsonaro dentro do próprio espectro ideológico de Bolsonaro. Dessa forma, tenta acolher os direitistas frustrados sem deixar de ser receptivo ao centro. Ao mesmo tempo, procura desenvolver uma gestão de resultados palpáveis, à frente do governo de São Paulo, para ser outra vez contraponto ao presidente de plantão. Tudo dentro de um PSDB que nasceu à esquerda, migrou para a centro-esquerda e se firmou nos últimos anos num espaço ideológico um tanto impressivo, mais para centro-direita.

Agora é direita, ainda que Doria tente se vender como uma direita light. Sim. Light. Mas direita.
 

O clássico ajuste ideológico oportunista

O ajuste ideológico em partidos é comum ao redor do mundo. Há o PP espanhol que se desprendeu do franquismo para chegar à centro-direita; ou o PSOE, também na Espanha, que saiu da esquerda marxista para se firmar como social-democrata. Os dois partidos repetiram um movimento estratégico clássico, que busca viabilidade eleitoral. É, portanto, um ajuste ideológico oportunista e tem exemplos aqui mesmo no Brasil, exatamente no PSDB e, sobretudo, no PT. No caso do PSDB, que nasceu como social-democrata (ou uma "esquerda civilizada"), o ajuste se deu após chegar ao poder: Fernando Henrique se elegeu em 1994 sem ter feito um plano partidário de longo prazo. Apareceu a chance, tornou-se candidato e venceu. A partir daí, o partido se ajustou ao governo que FHC abraçou, com sotaque entre social-democrata e liberal.

O PT se ajustou para chegar ao poder. No Congresso do partido de 1995, expulsou as correntes mais extremadas (como os trotskistas da “Trabalho”) e deu um passo para o campo centro-esquerda. Depois, já no poder, deu sequência à política econômica de FHC, mantendo um sotaque liberal, quando muito social-democrata. Quando a coisa apertou com o desmonte do país no governo Dilma, o PT começou a empunhar um discurso que acena para um retorno. Mas é muito mais discurso que ação. Como mostram as gestões do PT nos estados, persiste o sotaque entre social-democrata e liberal.