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Há 40 anos o Brasil perdia Petrônio, o articulador da redemocratização

Foto: Arquivo Senado Federal

Petrônio Portela: o senador piauiense foi voz fundamental no processo que levaria o Brasil de volta à democracia
 

Não era sequer para ter subido naquele avião que o levaria a Santa Catarina, onde o esperava uma agenda oficial como ministro da Justiça. Ele já não estava bem. Mas subiu. E quase não tomou o avião de volta. Em Florianópolis, Petrônio Portela sofreu um ataque cardíaco. Era grave e o médico tentou que já fosse para São Paulo. Mas ele preferiu retornar a Brasília, onde morreu naquele 6 de janeiro de 1980. Morreu jovem, aos 54 anos e com menos de 10 meses no Ministério da Justiça. Mas nesse curto tempo como ministro coroou um trabalho que havia iniciado menos de 7 anos antes, o de pavimentar o caminho para a redemocratização.

Petrônio, que nasceu em Valença em 12 de setembro de 1925, tinha cumprido uma carreira política meteórica: duas campanhas de deputado estadual (1950 e 1954), daí tornou-se prefeito de Teresina (1958) e, em seguida, governador (1962). Em 1966 se elegeu senador e desembarcou no Senado sob a desconfiança dos militares, já que foi contra o golpe de 1964. Mas, talentoso, logo se transformou em um dos líderes políticos do país e em 1971 chegou à presidência do Congresso. Petrônio assumiu as articulações política do governo no início do mandato de Ernesto Geisel, em 1973 e 1974. Ali começou a dar asas à chamada distensão, que também era traduzida como “abertura” ou, depois, redemocratização.

No começo, as articulações eram dentro do próprio Congresso, mas logo romperiam as fronteiras do Parlamento, em diálogo com igreja, OAB, empresários, sindicatos. Essas andanças que implicavam na transição para democracia era a “Missão Portella”, que criou o cenário propício para a redemocratização. O passo definitivo foi quando deixou o Senado – após presidir a casa por duas vezes – e assumiu o ministério, em março de 1979. Antes do ano acabar ele havia aprovado a Anistia – que enterrava de vez entulhos como o AI-5 e trazia de volta os exilados. Também aprovou um novo sistema eleitoral, que acabava com a camisa de força do bipartidarismo e devolvia a voz aos diversos segmentos da sociedade.

Quando morreu, Petrônio Portella era apontado como o avalista da redemocratização. Antes mesmo, os jornais o apresentavam como “a estrela civil” do regime militar. Talvez fosse mais justo se fosse apresentado como o líder que em plena ditadura reverberava a voz da democracia, o que permitiu ruir, ainda que lentamente, os muros do autoritarismo.
 

Um dos três maiores da política brasileira

Há dez anos, nos 30 anos de morte de Petrônio Portella, o Senado prestou homenagem ao ex-senador piauiense. O ex-vice-presidente Marco Maciel, que conviveu com Petrônio, discursou e o qualificou como “um dos grandes” da política brasileira do final do século passado. O cientista político Rui Nogueira, da UNB, também foi nessa mesma linha, mas sendo mais preciso ao dizer que Petrônio foi uma das três mais importantes figuras da política brasileira.

O deputado Wilson Brandão, que também é historiador, diz que Petrônio estava no pódio da política brasileira de seu tempo. Wilson também faz uma ressalva: o Piauí desconhece o tamanho da obra do avalista da redemocratização. Para o deputado, os jovens de menos de 30 anos não têm a menor ideia de quem foi Petrônio. E lembra do débito da própria classe política com o ex-ministro da abertura: por três vezes se tentou dar nome de Petrônio a uma das muitas cidades criadas na década de 1990.

Por três vezes foi preterido.