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Área de cultura que não sabe o que é simbologia não tem perdão

Roberto Alvim foi demitido do posto de Secretário Especial de Cultura. Em seguida pediu desculpas pelo que chamou de “erro involuntário”, ao usar em vídeo oficial um texto muito próximo do utilizado pelo nazista Joseph Goebbels, o poderoso (e manipulador) ministro da propaganda de Hitler. Não tem perdão. E por vários motivos. Primeiro que não cabe atribuir a auxiliares a construção do texto. Alvim o assumiu plenamente, e muito provavelmente sabendo onde queria chegar, já que o vídeo contava com elementos adicionais que remetem ao nazismo.

A trilha sonora utilizada foi a ópera Lohengrin, de Richard Wagner, compositor alemão que se tornou ícone no 3º Reich. Será que também a música foi utilizada sem que ele soubesse? Se as desculpas de Alvim são legítimas, merece sim ser demitido – porque não tem perdão um secretário especial (uma espécie de ministro) da cultura que não sabe a força da simbologia. Também merece ser demitido um secretário especial que não tem informação sobre o que foi o nazismo ou o nacionalismo extremado tão ardorosamente defendido por Hitler e sua turma assombrosa.

Alvim aparece no vídeo em um cenário cuidadosamente construído, com bandeira nacional e a cruz assumindo lugares estratégicos. Seria de estranhar que não soubesse o que estava sendo feito. O lógico mesmo é percebe que sabia o que dizia e tinha um foco claro de onde queria chegar. E também (ou sobretudo) por isso merecia ser demitido. Alvim foi atropelado por si e suas ideias.

Aliás, já poderia ter sido demitido bem antes, quando saiu atacando Fernanda Montenegro. Há quem não goste de Fernanda, um símbolo da cultura nacional por tudo de belo e extraordinário que fez. Alvim pode não gostar dela. Mas não se combate ideias e conceitos com tropelias e agressões.
 

A demissão não esgota o assunto

O presidente Jair Bolsonaro reagiu rápido ao vídeo de Roberto Alvim. Talvez pelas ligações com Israel, que não aceita qualquer gesto de glorificação do nazismo. Talvez pela ampla reação crítica, até mesmo dentro da direita radical que apoia o presidente. Isso é positivo. Mas há um detalhe a ser considerado: a defesa do autoritarismo e a negação de fato históricos terríveis estão muito presentes nesses 12 meses de governo Bolsonaro.

Tudo isso quer dizer que a demissão de Alvim não esgota o tema. Ao contrário, o reanima como tema de discussão sobre os valores que o Brasil deseja cultivar. Certamente defender o autoritarismo, a “lei da força bruta” ou os caminhos tornos dos regimes de exceção não formam um bom alicerce para uma sociedade minimamente equilibrada e livre.

Vale continuar com o debate.