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Brasil tenta sair da crise que fez anos 2010 piores que ‘década perdida’

O final de 2019 repetiu uma expectativa dos dois anos anteriores: como no final de 2017 e 2018, avaliava-se que o ano que estava por começar seria melhor, bem melhor – a ponto de encerrar a crise econômica brutal concentrada especialmente entre 2014 e 2016. As projeções apontavam para um novo ritmo na atividade econômica, antevendo-se um crescimento do PIB acima de 2%. Mas o início do novo ano repetiu os dois anos anteriores: as projeções estão sendo revistas e a perspectiva de recuperação começa a ser recalculada... para menos.

Esse movimento que sai da expectativa otimista para uma realidade desanimadora leva ao que o jornalista Celso Ming chama de “síndrome do Feliz Ano Novo fake”. A repetição de fakes em 2017, 2018 e 2019 se somou ao descalabro recessivo de 2015 e 2016 e o resultado é terrível: segundo levantamento do departamento de economia da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o desempenho médio da economia brasileira nos anos 2010 foi pior que a chamada “década perdida”, como são conhecidos os anos 1980.

Naquela década de fim de ditadura e recomeço da democracia, o Brasil vivia um desempenho econômico fraco (em alguns anos, fraquíssimo), com inflação alta, corrupção etc. Esse quadro só se alterou pra valer com o Plano real, em 1994. No caso da atual crise, ela começa em 2008, no embalo da crise mundial que o Brasil não soube enfrentar. Piorou com medidas equivocadas no início da década passada, que desaguaram na terrível recessão.

O grave é que não há uma clareza quanto aos caminhos que podem nos levar à recuperação. E não dá para esperar que surja um novo “plano real” que faça o milagre da transformação.
 

Brasil cresce a metade da ‘década perdida’

A comparação mostra o impacto devastador das duas décadas de crise. O economista Antônio Everton, da CNC, comparou o desempenho dos dois momentos. Ele lembra o terrível que foram os anos 1980. Mas não tem dúvidas: “A recessão dos anos 2010 foi bem maior do que a observada nos anos 80.” E tal afirmação pode ser medida em números. Ele mostra que, ao longo da década de 1980 (mesmo com a recessão 1981-1983), o Brasil cresceu 30%. Na década de 2010, o crescimento foi menos da metade.

Já o economista José Júlio Senna, da FGV, analisa os motivos. Ele considera que a recessão de 1980 “foi fundamentalmente uma recessão importada”, sofrendo o impacto do preço do petróleo, da dívida externa e hiperinflação. Na caso da crise mais recente, os problemas foram fundamentalmente internos. “O gasto público fora de controle, vai e vens de políticas econômicas, intervenção em excesso e tudo mais acaba inibindo o elemento fundamental do desempenho de qualquer economia, que é o fluxo de investimentos”, disse Senna ao Estadão.