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Políticos vão tentar unificar eleições, de carona no coronavírus

O coronavírus pode ter um importante efeito colateral no campo político: a pandemia pode ser a oportunidade (e a desculpa) para o Congresso adotar, sem questionamentos mais robustos, a velha proposta de unificação da eleição no Brasil, que permitiria ao brasileiro escolher em uma única data todos os ocupantes de cargos eletivos, de vereador a presidente da República. O ponto de partida para a medida seria a remarcação da eleição municipal deste ano.

O assunto gera discussão, dentro e fora do Congresso. No sábado, o vice-presidente do TSE e ministro do Supremo, José Roberto Barroso, disse que não é hora para se discutir o assunto. Ontem, no entanto, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, deu a senha para o tema seguir adiante. Segundo Mandetta, é hora do Congresso debater o assunto. E disse mais: seria razoável os congressistas pensarem em um mandato tampão. O senador piauiense Elmano Ferrer (Podemos) não perdeu tempo: já anunciou uma PEC fazendo a mudança que prorroga os atuais mandatos dos prefeitos por dois anos e unifica as eleições 

A grande maioria dos prefeitos festeja essa possibilidade. Não falam publicamente, mas nas discussões entre eles (inclusive em grupos nas redes sociais) aplaudem a ideia do mandato tampão. E vislumbram entre risos a ampliação de dois anos nos atuais mandatos, o que faria a escolha do próximo prefeito coincidir com as eleições gerais de 2022. Se assim for, estaria estabelecida a “eleição unificada”. Uma boa parcela dos políticos defende essa unificação com o argumento de que eleição a cada dois anos gera muito gasto e a paralisia da administração pública. O senador Ciro Nogueira, o influente presidente nacional do PP, já se disse totalmente a favor.

Mandetta deu a senha e agora é saber se o Congresso sobe no cavalo que passa selado. Mas também há voz forte contra a ideia.
 

Rodrigo Maia reage à proposta de Mandetta

A proposta do Ministro Luiz Henrique Mandetta de adiar as eleições municipais deste ano teve ontem mesmo uma reação poderosa: Rodrigo Maia, presidente da Câmara e principal liderança no Parlamento brasileiro, disse que não é hora de se discutir o tema. Rodrigo ainda adotou um tom gentil e até elogioso ao trabalho do ministro: “As eleições começam dia 15 de agosto. Vamos focar agora no tema da saúde. Aliás, área em que o Mandetta vai muito bem. Na hora correta vamos cuidar da eleição”.

Mandetta é deputado federal e, em conversa com prefeitos, ontem, disse que a eleição pode tirar o foco da luta contra o coronavírus. Segundo ele, o fator político contaminaria o esforço de saúde pública. “Eu sou político”, disse ele aos prefeitos, como a deixar claro que conhece bem essa realidade. A voz de Rodrigo Maia, no entanto, tira um bocado da força da fala do ministro da Saúde, já que uma mudança desse tipo teria que passar pelo Congresso. Vale notar a fala de José Roberto Barroso, também contrária. Como a ideia de ampliar o mandato é juridicamente questionável, a Justiça pode ser um entrave e tanto.