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Turbulência desafia democracia na América Latina, diz cientista

Um dos mais respeitados cientistas políticos com estudos focados na América Latina, o norte-americano Scott Mainwaring diz que a região vive um enorme desafio democrático em meio às turbulências que há algum tempo alcançam vários países. Em entrevista à revista EXAME, Mainwaring avaliou que a América Latina foi incapaz de aproveitar o chamado superciclo das commodities (algo como de 2000 a 2015) com desempenho econômico aquém do esperado. Para completar, não reforçou instituições e se vê agora ante o importante desafio de consolidar a democracia.

Na entrevista à EXAME, Scott Mainwaring diz que a eleição de Jair Bolsonaro é fruto do descontentamento, assim como a derrota de Maurício Macri na Argentina e uma onda de protestos em diversos países. Além de duras críticas a Bolsonaro, aponta o dedo para os governos anteriores, observando que o Brasil teve política econômica de pouco resultado e o agravante de não ter contado com políticos “que governem decentemente”.

Confira algumas ideias de Scott Mainwaring

• Instituições fortes: Mainwaring diz que instituições sólidas” são um antídoto contra a erosão democrática, aí destacando a existência de partidos políticos fortes e um Judiciário que “trabalhe bem”. “E a última coisa absolutamente indispensável — e isso é onde o Brasil falhou — é ter políticos que governem decentemente”.
• Democracia no Brasil: Avalia que no Brasil houve erosão da democracia. “Certamente ela não se rompeu. No entanto, as profundas insatisfações levaram à eleição de um presidente que não é um democrata”.
• Economia fraca: “Em geral, desde o fim do boom de commodities, as democracias da América Latina não tiveram um bom desempenho econômico”. Agora, uns seis anos depois daquele ciclo de bonança, “o cenário econômico tornou mais difícil”.
• Economia no Brasil: Mainwaring vê no Brasil um exemplo de “como o fim do superciclo de commodities e má gestão da economia levaram a uma recessão longa e aprofundada”, produzindo desencantamento com o antigo establishment e especialmente com o PT.
• O caso do Chile: Vê muitos êxitos no caso chileno. “Crescimento econômico, redução de pobreza, estabilidade do governo, múltiplas alternâncias de poder. Mas há também déficits”.
• Crise de hoje e do passado: “Há muitas diferenças, mas talvez a fase mais parecida seja o período entre o começo e a metade dos anos 2000. O que era semelhante naquela época é que havia insatisfação com os resultados medíocres de políticas econômicas direcionadas ao mercado”.
• Nossas Democracias sólidas: “O Uruguai, a Costa Rica e, eu diria também, o Chile são, de longe, os países que se destacam como aqueles que possuem as instituições mais sólidas na América Latina. E, portanto, eles são os países em que uma erosão da democracia é menos provável que ocorra”.

Fonte:  Entrevista Scott Mainwaring.