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Há 60 anos, em um 11 de maio: um marco contra a impunidade e o nazismo

Foi uma operação ousada, em um ambiente claramente desfavorável. Era 11 de maio de 1960, e o cenário era a Argentina, país que se destacava como ponto de acolhida de um mundo de criminosos nazistas. Naquele dia, agentes do Mosad, o serviço secreto de Israel, desconsideraram os protocolos diplomáticos e resgataram o então mais procurado criminoso da “Era Hitler”, Adolf Eichmann. Fora ele, os holofotes só buscavam Joseph Mengele, que também se movimentava pela região e acabou refugiando-se no Brasil, onde morreu sem pagar por seus crimes.

A captura de Eichmann é um marco. E por vários aspectos. Vale destacar dois. Primeiro, por conseguir anos a fio driblar a vigilância dos caçadores de nazistas. Segundo, pelo que representou em seguida o julgamento do homem-símbolo da “Solução Final”, plano de extermínio dos judeus durante a 2ª Guerra. Tem mais: o julgamento de Eichmann, dois anos depois, permite que Hannah Arendt produza um dos mais importantes textos sobre o autoritarismo (Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal). E também leva à produção de filmes como “Operação Final”.

O sequestro de Eichmann em Buenos Aires coroa 15 anos de busca. A caçada começou em 1945, em uma ação da comunidade judaica tendo à frente Simon Wiesenthal, o famoso "caçador de nazistas" e também um sobrevivente dos campos de concentração. A busca ganha novo rumo em 1957, quando o procurador do estado alemão em Hesse, Fritz Bauer, fez que os serviços israelenses souberam que Eichmann se escondia na Argentina com o nome de Ricardo Klement.

A Alemanha não mais se debruçava sobre o paradeiro desses criminosos. Israel, sim. E em 1960 agentes do Mosad empreendem a operação que levaria à prisão de um dos maiores criminosos da História.


‘A banalidade do Mal’, segundo Arendt

O livro de Hannah Arendt (Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal) é um clássico. A partir do caso real de Adolf Otto Eichmann, o livro traz um relato sobre as condições em que se deu a prisão e os julgamentos de Eichmann, o home da “Solução Final”. O texto é uma edição ampliada da cobertura que Arendt fez do processo do criminoso nazista para a revista New Yorker, publicado de fevereiro a março de 1963. Nele Arendt mostra o cenário montado em Israel para a realização do julgamento.

O livro de Arendt é um extenso relato: descreve o tribunal, com Eichmann em uma cela de vidro, gripado, e os atores envolvidos (juízes, promotores, o advogado de defesa, etc.). Sobre o réu, faz um denso relato apontando suas características pessoais, seu comportamento, sua história (as tentativas de ascensão profissional dentro e fora do partido Nazista – Partido Nacional Socialista – e da SS. Relata a forma como Eichmann chegou ao seu cargo no departamento de emigração e transportes e suas tentativas de resolver a questão judaica, através da expulsão deles da Alemanha. O texto é também um marco na discussão sobre o autoritarismo.

Nada mais atual.