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Coronavirus derruba segundo ministro

Virou piada nos corredores do Poder em Brasília: a cloroquina derrubou o segundo ministro da saúde. Seria risível se não fosse tão sério diante da situação vivida pelo país e o mundo. E é certo que a saída de Nelson Teich, assim como a Luiz Henrique Mandetta, tem importante significado. Fica evidente que há sim uma clara diretriz do governo em relação à pandemia e ela não dialoga muito com as orientações da Organização Mundial de Saúde e de uma parte da comunidade científica – incluindo grupo expressivo de técnicos do próprio Ministério da Saúde. Mas dialoga com a política.

Desde o início da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro fez uma aposta clara na retomada das atividades econômicas como fator principal. E incluiu no coquetel político um medicamento (a cloroquina) que ganhou aura de milagreiro, apesar de muitas ressalvas científicas. Certamente faz um cálculo que passa pela saúde e a economia, mas que é sobretudo um cálculo político. E tal conta passa por alguns pontos:
O horizonte da reeleição: Bolsonaro se apresentou como antipolítico mas é essencialmente político. E político quer poder. Ele quer um novo mandato. E se movimenta nessa perspectiva.
Prioridade é unir bolsonaristas: entende que o primeiro passo é ter uma boa bate popular. São os mais de 25% de bolsonaristas que mantém uma fidelidade acima de qualquer coisa. É para esse grupo que discursa um dia sim e outro também.
Economia para além dos bolsonaristas: mas Bolsonaro sabe que não se ganha eleição de dois turnos com esse percentual de votos. Daí a aposta na economia. É a partir de um bom desempenho da economia, sobretudo preservando empregos, que o presidente esperar alcançar uma boa fatia de brasileiros além dos bolsonaristas.
 

Todo mundo faz cálculo político

Bolsonaro quer chegar em 2022 como a alternativa viável da direita. E de preferência tendo alguém bem à esquerda como contraponto. Por isso aposta tanto na dualidade Bolsonaro x PT. Mas, como faria Garrincha, é preciso perguntar: já combinou como os russos? Sim, porque todo mundo faz seu jogo. Senão vejamos:
Centrão: se aproxima de Bolsonaro na hora crítica, quando pode cobrar mais espaço de poder. Mas nada garante que permaneça com Bolsonaro. Basta lembrar a “virada” às vésperas do impeachment de Dilma Rousseff.
Governadores: fazem suas apostas posicionando-se no contraponto ao presidente. Alguns estão pensando na cadeira do Planalto, como João Dória e Wilson Witzel, dois ex-bolsonaristas que vivaram antibolsonaristas “desde criancinhas”.
Esquerda: tem o discurso antibolsonaro desde a campanha, mas se fragmenta (por exemplo: PT e PCdoB de um lado, Ciro Gomes de outro). Cada um quer se posicionar como “a oposição”.

E para completar tem o gol contra do próprio Bolsonaro, criando adversários que podem avançar sobre seu segmento particular. Um desses adversários é o ex-juiz Sérgio Moro, já cortejado como potencial candidato ao Planalto.