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Consumidor mais pobre impede recuperação do comércio

Após dois meses fechado, o comércio de São Paulo alimentava a esperança de recuperação parcial com a reabertura das atividades e uma data importante – o Dia dos Namorados. Os dados da Associação Comercial da maior cidade do país, no entanto, desnudam a dura realidade: as vendas na primeira quinzena de junho caíram 69% em relação ao mesmo período do ano passado. A leitura desse quadro é não menos terrível: “O consumidor empobreceu. Profissionais liberais, empregados CLT e informais perderam renda e estão consumindo suas reservas ou se endividando. Com a reabertura ou não do comércio, levará tempo até o consumidor recompor seu orçamento”, diz Marcel Solimeo, economista da Associação.

Solimeo explica que o Dia dos Namorados não se converteu em vendas, tampouco os primeiros finais de semana com flexibilização. “Os comerciantes esperavam sacolas cheias”, diz o economista, apontando a frustração do setor. Nem mesmo o crediário gerou o alento esperado: as vendas a prazo caíram 56,5% na comparação anual, enquanto as vendas à vista recuaram 81,4%. Já a comparação com a primeira quinzena de maio deste ano, o resultado das vendas à vista teve aumento de 16,3%, e de 9,4% nas vendas a prazo.

Os resultados de São Paulo são seguidos de perto pelos lojistas de todo o Brasil, já que em muitos estados o empobrecimento do consumidor é ainda maior.

Pandemia faz desemprego parecer menor do que é

Os dados oficiais do IBGE sobre o desemprego são terríveis. Segundo números divulgados na semana passada, temos menos da metade da força de trabalho ocupada e quase 30 milhões de brasileiros buscando um emprego – sem conseguir. Mas esses números terríveis podem ser ainda piores, segundo avaliação de analistas relacionados a grandes empresas financeiras ou de consultoria. E a conclusão é simples: o isolamento social que veio com a pandemia faz que muitos tenham perdido o emprego e não têm como buscar um novo posto.

Essa procura também pode ter sido atenuada pelo próprio pagamento do auxílio emergencial de R$ 600, conforme analisa Luka Barbosa, do Itaú Unibanco. O economista projeta que fecharemos o ano com um desemprego da ordem de 17% – ou cerca de 29 milhões de brasileiros sem ocupação, o que vem a ser muito próximo do número do IBGE sobre a quantidade de pessoas que hoje estão procurando trabalho. Ou seja: a realidade de hoje são deve ficar diferente lá no final do ano.

Avalia-se que somente a reabertura das atividades econômicas deve evidenciar o tamanho da massa de desempregados. E não será um número qualquer. Pesquisa do Ibra/FGV aferiu que os empresários estavam dispostos a fechar este segundo trimestre com mais demissões. Mas o trimestre só termina na próxima semana e os números agregados só serão conhecidos por inteiro lá para o final de julho.

Os dados da FGV também apontam as duas áreas que mais sentiram os efeitos da crise até agora: serviços e construção civil.