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Com tradição governista, Nordeste enche a bola de Bolsonaro

Depois das eleições de 2018, multiplicaram-se os posts na internet apontando o Nordeste como o rincão da resistência ao conservadorismo. As postagens, proliferadas pelos segmentos mais à esquerda, festejavam o fato de Jair Bolsonaro não ter vencido em nenhum estado da região. Como bordão, a série de postagens até podia ter sentido. Mas a realidade é vem outra: o Nordeste costuma ser governista. E, ainda com alto índice de pobreza, bastante vulnerável às ações que dialogam com o assistencialismo.

A última pesquisa do DataFolha (divulgado hoje pela Folha de São Paulo) parece dar razão a esses argumentos e coloca alguns palmos de terra sobre a ideia de que somos o local da resistência anticonservadora. Conforme o DataFolha, Bolsonaro alcançou agora a maior aprovação desde que tomou posse (tem 37% de conceitos ótimo e bom). E chama atenção a rejeição ao presidente aqui no Nordeste, que caiu de 52% (em junho) para 35% (em agosto) – um recuo de 17 pontos. Nada desprezível. E o que pode explicar esse novo olhar da opinião pública?

Há certamente uma mudança de estilo: o presidente abandonou o confronto aberto e passou a adotar um tom mais moderado. Mas o que deve explicar a maior parte da mudança, pelo menos no Nordeste, é a consolidação do Auxílio Emergencial, aquele das três parcelas de R$ 600,00. É aqui onde está a maior fatia de beneficiados. Para dar força a essa análise, o DataFolha mostra que a soma de ótimo e bom entre os que pediram ou receberam o Auxílio é acima da média nacional: 42%.

Não por acaso o governo vem se empenhando tanto em viabilizar não apenas uma nova etapa do Auxílio, como (e principalmente) o seu Renda Brasil.
 

Velha fórmula que até a ditadura usou

A popularidade turbinada à base de programas de socorro a vulneráveis não é coisa nova. Tem algo parecido desde Getúlio. Mas ganha contornos bem nítidos na ditadura, que criou o Funrural para garantiu aposentadoria a quem (teoricamente) não tinha como comprovar vínculo trabalhista no campo. Sarney tentou o Programa do Leite. Mas foi Lula quem conseguiu mais, com o Bolsa Família, a repetir Getúlio como Pai dos Pobres. Agora é a vez de Bolsonaro tentar algo parecido com o Auxílio e, de forma mais duradoura, com o Renda Brasil.

A fórmula nega o ditado chinês: essas ações não ensinam a pescar, e simplesmente entregam o peixe já frito. Mas garante aval popular àquele que assina o programa de ajuda: é aplauso do povão garantido. O Nordeste, ainda cheio de carências, mais uma vez bate palmas e – outra vez – valida o governo de plantão. Alguém pode dizer: mas essas ações não transformam a vida das pessoas; só amenizam a crueza. Verdade. Mas o propósito imediato é esse mesmo.