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A morte do embaixador e o jornalismo estilo Redes Sociais: sem retoque


Assassinato do embaixador russo na Turquia: a foto que ganhou o "Oscar" do fotojornalismo

 

O setor de comunicação em geral se pergunta: como fazer jornalismo nos dias de hoje, em que as redes sociais avançam sobre todos os segmentos dessa indústria tão dinâmica e apaixonante. A pergunta se torna ainda mais relevante em tempos de “pós-verdade” ou de “fato alternativo”, termos que remetem ao que sempre se chamou “inverdade” ou simplesmente “mentira”.

O anúncio do resultado do principal prêmio do fotojornalismo mundial lança um pouco mais de luz sobre o que é esse novo jornalismo. A foto ganhadora (essa aí de cima, de Burhan Ozbilici, da Associated Press) é a cena de um momento muito particular: o momento seguinte ao assassinato do embaixador russo Andrey Karlov, em Ancara (Turquia), dia 19 de dezembro passado. Nela, o embaixador está no chão e o que ganha força é a expressão de ódio do assassino, dedo em riste e arma em punho, discursando após disparar contra Karlov.

A foto premiada rompe com o fotojornalismo clássico, aquele do enquadramento rigoroso e de composição ultra cuidada, com cada coisinha no lugar. O registro de Ozbilici sequer tem todo o corpo do embaixador. Mas é a tradução de um momento. Não apenas o momento do assassinato, mas o momento político do mundo atual. Como uma foto de guerra, o que mais vale é a ação que revela.

Ozbilici resgata o espírito de grandes fotógrafos de outros tempos, como Robert Capa, que até cedia nesgas técnicas para não abrir mão de nenhuma lasca da ação, do drama. Ou seja: qualquer coisa para mostrar a ação, o momento sem retoques. Tudo cru. Direto. Vivo – mesmo tratando-se de uma cena de morte.

Não deixa de ser coerente com esses tempos de redes sociais, em que a vida brota em todas as suas nuances, inclusive nos aspectos farsescos. Mas não deixa de ser curioso pensar que essa relação direta e sem retoque já foi a marca do fotojornalismo de outros momentos – sobretudo dos correspondentes de guerra.

Vale lembrar: Capa – que cobriu a guerra civil espanhola, registrou o desembarque da Normandia e morreu na primeira guerra da Indochina – esquecia os riscos e praticamente metia-se no meio do fogo cruzado. Assim, podia mostrar o drama da guerra de perto, muito perto, escancarando as tragédias que toda guerra carrega.

De certa forma, a foto de Ozbilici  resgata esse jornalismo sem retoques. Mas com uma enorme diferença: não precisa ir a guerras distantes. Tudo pode acontecer numa elegante galeria de arte. Como no caso do assassinato do embaixador russo.