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Trabalho não remunerado da mulher pode representar até 39% do PIB


Mulher e mercado de trabalho: avanços no espaço público sem atenuar alta carga no espaço privado

 

As profundas mudanças no mercado de trabalho não têm alterado de forma igualmente substantiva a posição da mulher na distribuição de tarefas, especialmente quanto às responsabilidades dentro de casa. E se a mulher pode comemorar maior presença nos postos de trabalho e até na condição de provedora do lar, não se encontrar na mesma medida o movimento contrário, em que o homem deveria ter maior participação nas responsabilidades domésticas.

Para Maria Dulce Silva, pode-se dizer que a mulher "levou a casa para o espaço público". Em entrevista ao Acorda Piauí, hoje, na rádio Cidade Verde, Dulce – que integra o GENDAC, núcleo de estudo sobre mulher, gênero e cidadania – disse que a maior participação da mulher no espaço fora de casa não implicou no envolvimento expressivo dos homens nas tarefas dentro de casa: os homens continuam em grande medida achando que cuidar da casa é coisa de mulher.

Levantamento do IPEA aponta que a mulher brasileira trabalha, a cada semana, 7,5 horas a mais que os homens. Essa jornada a mais está associada especialmente às tarefas domésticas, onde os homens seguem pouco presentes. Pior: esse trabalho extra não é considerado relevante. Quanto equívoco!

Os dados internacionais indicam, no entanto, que o trabalho doméstico tem importante participação no PIB, mesmo nos países mais desenvolvidos. Segundo levantamento da ONU, na pior das hipóteses, o trabalho não remunerado representa 10% do PIB. “O valor do trabalho de cozinhar, limpar, cuidar de crianças e dar atenção a pessoas idosas – tarefas que a economia depende – representa entre 10 e 39% do PIB. Pode pesar mais na economia de um país do que pesam a indústria manufatureira ou a do comércio”, diz o site da ONU Mulheres.

Os problemas não se resumem a essa constatação estatística. Como observa a própria ONU, o trabalho não remunerado – que supre carências do serviço público – “são uma carga e uma barreira injustas para a igualdade de participação no mercado de trabalho e na igualdade de remuneração”. Daí, o organismo internacional adverte para a necessidade de mudança nas normas que marcam quem desempenha essas tarefas, bem como na valorização do trabalho decente e remunerado no âmbito do que chama de “economia de cuidado”.

Para a ONU, é fundamental a adoção de “políticas que permitam reduzir e redistribuir o trabalho não remunerado, por exemplo, mediante o aumento de empregos remunerados na economia de cuidado e incentivar os homens a dividir o trabalho de cuidado e o trabalho doméstico”. Ainda que uma óbvia necessidade, não é uma tarefa fácil, sobretudo porque essa mudança inclui a superação de barreiras culturais antigas e arcaicas.