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Machismo limita presença da mulher na política, diz representante da ONU

 


Nadine Gasman, da ONU Mulheres, aponta para a baixa representação da mulher brasileira na política

 

O Brasil é o terceiro pior colocado entre países da América Latina e Caribe, no que diz respeito à representação política da mulher. O dado foi revelado por Nadine Gasman, em entrevista nesta quarta-feira ao Acorda Piauí, na rádio Cidade Verde. Para ela, a cultura machista que impera nas organizações políticas limita a presença da mulher no cenário político.

Para Nadine, a mulher faz parte da vida partidária, mas isso não garante a ocupação de postos políticos. Essa realidade é uma marca da América Latina, onde a presença da mulher nos parlamentos nacionais é, em média, de 24%. Mas o Brasil tem uma realidade ainda mais perversa, com representação ao redor de 10%.

Nadine também falou sobre a política de cotas para as mulheres, que existe em praticamente todo o mundo. Mas lamentou que, no Brasil, isso não tenha se transformado em participação efetiva. Ela culpa em parte a legislação eleitoral, onde a eleição com lista aberta deixa a mulher em desvantagem – aí sim em razão de uma cultura machista que restringe a participação feminina ou a coloca em lugar secundário.

Pela legislação eleitoral brasileira, as mulheres têm direito a ocupar 30% das candidaturas de um partido ou coligação. Mas, ao mesmo tempo, só assegura o direito a 5% do orçamento das campanhas. Para a representante da ONU, deveriam ser assegurados, pelos menos, os mesmos 30% referente às candidaturas.

A entrevista de Nadine se junta a outros dados que vieram a público neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher. A pesquisadora paranaense Luciana Panke revelou que o pouco caso às candidaturas de mulheres é encontrado tanto nas organizações de direita como de esquerda. Ela também mostra que, no cenário mundial, o Brasil está na 155ª posição do ranking de participação da mulher na política.

 


Cultura da violência contra a mulher

Uma pesquisa realizada pelo instituto Datafolha, sob encomenda do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que quase um terço das mulheres com mais de 16 anos sofreram algum tipo de violência no ano passado. A pesquisadora aponta para uma espécie de cultura da violência, que toma como natural as agressões verbais ou físicas à mulher.

A pesquisa de Panke referente a 2016 mostra que as agressões acontecem principalmente em casa (43%) e na rua (39%). Mas também acontecem no trabalho (5%) e na balada (5%). As ocorrências são mais freqüentes (45%) entre mulheres jovens, de 16 a 24 anos.

Também chama a atenção o fato de 52% das mulheres que sofreram algum tipo de agressão não fizeram nada a respeito da violência sofrida. Das 48% que tomaram alguma medida, 13% procuraram ajuda da família, 12% apoio dos amigos e 5% procuraram a igreja que frequentam. Apenas 11% buscaram uma delegacia da mulher, enquanto 10% denunciaram o caso numa delegacia comum.

Mas há uma esperança: a mulher mais jovem tem tido mais acesso a informação e já reconhece determinados gestos, como beijo forçado ou assédio no transporte público, como formas de violência que vão além do bater ou agredir fisicamente.