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Lista fechada: Congresso transforma limonada em limão

Parece brincadeira, mas a discussão sobre a reforma política mostra a vocação do Brasil para transformar limonada em limão. Isso mesmo. A gente pega tudo o que dá certo mundo afora e transforma em artifício fisiológico, vantagem pessoal, malandragem etc.

Um exemplo é a proposta de eleição com lista fechada, que os caciques da nossa política querem introduzir como estratégia para assegurarem o retorno ao Congresso em 2018. Diante da absurda crise de credibilidade, não querem correr risco de rejeição pelo eleitor. Daí, a lista fechada é o melhor caminho da reeleição.

Para ficar claro: a lista fechada é um sistema em que o eleitor não vota individualmente em um candidato a deputado, mas num bloco de candidatos previamente definidos e ordenados pelos partidos. O eleitor conhece a lista, sabe a ordem e ao votar na lista – teoricamente – faz opção ideológica, escolhe propostas, abraça políticas públicas. Por outro lado, o eleito se vincula às teses do partido, evitando atuação pautada pelo interesse eminentemente pessoal.

Por esse sistema, os eleitos são aqueles que são colocados no alto da lista. Quando apresenta a lista ao público, o partido coloca a ordem de candidatos. Exemplo: 1) Pedro; 2) Maria; 3) Ana; 4) José; 5) Rita. Se os votos do partido são suficientes para eleger só dois, os eleitos são os dois primeiros da lista, Pedro e Maria. Se a proporção de voto for suficiente para três, aí os eleitos serão Pedro, Maria e Ana – conforme a ordem da lista previamente apresentada.

O movimento de mulheres inclusive defende esse sistema como forma de ampliar a representação feminina, onde o Brasil tem um dos piores desempenhos.

Funciona e preserva os partidos, identificados com ideias específicas. Além disso, o custo de campanha cai muito: ao invés de cada candidato fazer uma campanha à parte, inclusive contra os próprios companheiros de partido, a lista fechada leva a uma só campanha. No nosso exemplo, não seriam cinco campanhas, mas uma para o bloco inteiro.

Mas o que é uma boa e refrescante limonada mundo afora, aqui vai se transformando num azedo limão. Os caciques do Congresso querem eliminar o risco. Querem se eleger protegidos pelo escudo coletivo, da lista que tira o foco sobre uma enxurrada de políticos envolvidos até a alma na Lava Jato e outros escândalos. E a proposta já está recebendo o apoio de estrelas tanto do governo como da oposição. Mas não pelos bons exemplos que a lista fechada aponta, e sim pela possibilidade de fugir do julgamento severo da opinião pública.

Dessa forma, alguns que sempre defenderam a lista fechada começam a pensar realmente se vale a pena introduzi-la no sistema político brasileiro nesse cenário nebuloso e guiado por intenções tão pouco republicanas.