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Um selfie vale mais que mil discursos?

Donald Trump: o modelo de líder-selfie vazio de propostas e repleto de imagens pessoais

 

Não é de hoje, e nem só no Brasil, que se vem questionando os rumos da política. Tais questionamentos passam pelos escândalos de corrupção, a falta de legitimidade dos representantes, o papel de instituições como os partidos e, no final de tudo, a própria qualidade da democracia. Reclama-se especialmente do estilo atual da política.

Tudo é espetáculo. E – sendo gentil – de qualidade duvidosa. Porque tudo virou selfie.

Esse debate sobre o modo de fazer política e seus efeitos vem ganhando corpo especialmente com o advento das redes sociais, e mais ainda depois da eleição de Donald Trump, uma espécie de líder-selfie. Ao final da campanha e Trump já eleito, o eleitor médio dos Estados Unidos seguia desconhecendo as ideias centrais do novo mandatário. Quando muito, sabia quais seus inimigos, a cor do seu cabelo e sua conta no Facebook.

Por que? Ora, porque Trump apresentou muito pouco de ideias e muito de imagem.

Trump se elegeu com forte ação nas redes sociais e não mudou o estilo depois da posse: seu canal de comunicação segue sendo o Twitter ou o Face. E se porta como se candidato ainda fosse, o que facilita a mobilização em torno de sua figura polêmica. Não se sabe se tem razão de querer governar na base de posts. Mas tem motivos para acreditar na força de tuítes, selfies e vídeos no Youtube.

Em campanha, fez do Facebook Live sua televisão. E uma televisão sem contradito: dizia o que bem entendia, sem precisar se explicar para jornalistas, esses chatos que esmiúçam as contradições e as inconsistências nos discursos políticos. Uma beleza!

Só para se ter uma ideia: entre 12 de setembro e 19 de novembro do ano passado – período mais intenso da campanha e nos dias seguintes à eleição –, Trump teve 119 milhões de visualizações de suas aparições (Hillary, que explorava menos a ferramenta, teve 31 milhões). O magnata de cabelo laranja chegou a emitir até dez mensagens “ao vivo” num só dia. Isso resultava numa média de 150 mil comentários por mensagem. Nada mal, ainda mais que os comentários desabonadores podem simplesmente ser borrados.

Ainda que seja mais emblemático, especialmente pelo pouco caso que dispensou à mídia tradicional, o fenômeno Trump não é isolado. A Europa vê escandalizada a emergências de líderes vazios de conteúdo e prenhes de selfies. Líderes que se esquecem das propostas em nome de uma imagem meramente pessoal. Exemplos recentes: o holandês Jesse Kleber e o novo furacão alemão, o socialdemocrata Martin Schultz. Te cuida, Ângela Merkel!

Na política européia, identidade partidária significa compromisso ideológico e certo tipo de política pública. Tudo isso fica em segundo plano, ou mesmo em completo esquecimento, quando a imagem dá lugar às falas. É como se um selfie valesse por mil discursos.

O debate que embala boa parte da Europa escandaliza no Brasil pelo sentido inverso, como acontece na discussão da reforma política. Aqui, rejeita-se o voto partidário porque é preciso identificar o votado. O eleitor precisa saber em quem vota.

Ora, vem sendo assim há década; há mais de século. E o resultado não tem sido nada bom.

Seja como for, cada vez mais gente segue o fenômeno Trump. E as redes sociais estão repletas de salvadores da pátria, cada um recrutando seu exército particular de seguidores, encantados com uma imagem que muitas vezes é falseada ou desprovida de coerência. Mas esse exército não busca argumentos, nem ideias. Busca sensações, tal e qual aconteceu com na eleição de Trump.

E, em matéria de sensação, nada melhor que um selfie. Normalmente, a imagem postada é a própria tradução da valentia e da felicidade.

Como não acreditar que um selfie vale mais que mil discursos?

PS.: pode dizer um selfie ou uma selfie. É substantivo de dois gêneros.