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As razões que fazem Bolsonaro existir no cenário político nacional


Jair Bolsonaro, ontem, após desembarcar no aeroporto de Teresina: recepção popular

 

Em um cenário, digamos, normal, seria pouco razoável dar atenção às pregações de personagens como Jair Bolsonaro, o deputado federal pelo PSC do Rio de Janeiro que anda Brasil afora incendiando platéias com uma pregação que defende a força, ou mesmo a violência como forma de combater o caos. Bolsonaro está num partido minúsculo e conta com o respaldo de poucos setores sociais. Mas apresenta-se como Salvador da Pátria. E convence muitos.

Bolsonaro é filho do caos, que em geral alimenta propostas extremadas e dá acolhida a discursos inflamados. E o discurso do deputado do PSC se sustenta no item que mais incomoda a população, em todos os segmentos: a violência, a falta de segurança.

Os números da violência no Brasil são vexatórios. Em algumas áreas de cidades grandes e médias, vive-se uma situação de guerra civil, transformando bairros inteiros em domínios de facções. O Poder público sequer entra nesses territórios dividido e controlados por organizações criminosas.

Tal situação traz a óbvia sensação de insegurança: o cidadão se recolhe às suas casas cercadas de grades, deixando as ruas para os bandidos que transitam tranquilamente. O sentimento bastante generalizado é que o cidadão está preso em casa e bandido livre. Some-se a isso a sensação de impunidade, como se a Justiça contasse pouco, ou nada. Isso se traduz em outro lugar comum: a polícia prende e a Justiça solta. Ou que a Justiça só funciona para quem não tem bom advogado.

O resumo da ópera é um só: o cidadão se sente abandonado, inteiramente desprotegido. E cobra medidas, sobretudo medidas duras, nem que seja “na porrada”. É nesse espírito que as pesquisas mostram que metade da população concorda com a frase “bandido bom é bandido morto”.

Bolsonaro surfa com desenvoltura na onda do caos, sobretudo porque tem origem militar, figura em geral associada às posições fortes, autoritárias. É visto como uma mão forte capaz de agir contra “essa bandidagem” que está por aí. E quando mais endurece o discurso, quanto mais ataca os “direitos humanos para bandido”, mais recebe aplausos de uma sociedade acuada.

Pode-se dizer que Bolsonaro é o resultado de uma sequência de políticas equivocadas: a ineficiência da política educacional, a falta de perspectiva de efetiva inclusão cidadã (sobretudo econômica) e a miopia da política de segurança. Nesse quadro de desconcerto, a cidadania pede um Salvador da pátria. Outra vez um Salvador da Pátria, como foi Collor um dia.

Como Salvador da Pátria, o deputado revela a pouca consistência ao falar sobre educação, saúde, infraestrutura, economia... Mas  Bolsonaro, com o único e radical discurso sobre a violência, vai ganhando adeptos em todos os segmentos da sociedade. Porque o caos é assim como uma enchente: pega-se o primeiro tronco.

Esse tronco sempre parece nos manter na superfície. Sabe-se lá por quanto tempo.