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Bona Medeiros, nas exceções da regra


Bona Medeiros: exceção dentro da política, ao cuidar do que é público como público

 

Reza a lenda que Bona Medeiros, governador em 1986, foi o responsável pela derrota do candidato governista daquele ano, Freitas Neto. Também reza a lenda que não espalhava simpatias – ao contrário, era fechado, duro. E que cuidava com esmero da coisa pública.

Também reza a lenda que seu filho, Gustavo Medeiros, duas vezes eleito prefeito de União, foi igualmente duas vezes derrotado quando – mesmo fazendo boa gestão – tentava a reeleição. Reza a lenda que Bona era um bom administrador, mas não era um bom político. Por que? Porque não sabia transformar poder em traquinagem política. E que o filho cuidou de olhar a lição e emular os gestos.

Bona Medeiros, que faleceu ontem aos 87 anos incompletos, fazia parte de um leque cada vez mais estreito de políticos que acreditam que ser bom político é ser bom gestor; é saber levar para o cidadão o que a cidadania precisa, sem maiores cálculos eleitorais, muito menos os cálculos das estrelas da nova Era política, que administram suas carreiras na lógica do toma lá dá cá – uma equação que sempre resulta em subtração, subtração da coisa pública.

Durante anos, Bona Medeiros viu o dedo de muitos apontado em sua direção, depois da derrota de Freitas, em 1986. Como poderia um governador ter o topete de não usar a máquina? – indagam tantos, sem contemporizações. Aquilo enchia Bona de mágoa, uma mágoa que só não transbordou porque o próprio Freitas nunca alimentou essa crença. Mais uma lenda.

Seja como for, esses episódios revelam importantes traços da personalidade de Bona Medeiros. Foi vitorioso numa época em que esse tipo de postura ainda cabia. Hoje, certamente seria um derrotado. Condenado. Uma exceção dentro da trágica regra do toma lá dá cá.

E essa regra que revela a personalidade de Bona Medeiros também revela um tanto da tragédia nacional, a da esperteza como norma padrão. Seria bom ter alguns tantos de exceções a considerar o compromisso da representação popular como uma dívida com o público. E a coisa público como algo que é só e somente só isso: coisa pública.

 

Trajetória de Bona Medeiros

Bona foi eleito deputado pela primeira vez em 1962. Não vinha do nada. O pai, um abastado comerciante, fora prefeito de União. O sogro, uma das estrelas da Justiça piauiense. Com o golpe de 1964, ficou como quase todo mundo na Arena. Mas lá esboçou gestos inesperados. Por exemplo: no final dos anos 60, quando a ditadura fustigava o primo Antônio José Medeiros, tirou a poeira do diploma de advogado e arvorou-se de defensor do esquerdista.

Foi deputado estadual mais quatro vezes antes de torna-se vice-governador, na chapa de Hugo Napoleão, em 1982. Antes, já havia por duas vezes ocupado a prefeitura de Teresina, com obras importantes de infraestrutura, descobrindo os rios como uma extensão da cidade.

Quando Hugo se desincompatibilizou para disputar o Senado, em 1986, tornou-se governador. Depois, voltaria à Assembleia Legislativa novamente, antes de entregar a cadeira de deputado estadual ao filho Gustavo – nisso ele não foi exceção –, o mesmo que se tornaria prefeito de União duas vezes.

Ah, Bona também quis ser prefeito de União. Tentou em 2000. Perdeu. Não realizou o sonho alcançado pelo pai e o filho. E isso não é lenda.