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Vídeos de Odebrecht. Ou 'Não me subornaram, será que é o meu fim?'

Cazuza, ironia bem lembrada em tempos de Odebrecht: "Não me subornara, será que é o meu fim?"

 

Foi assim como os rojões de Réveillon: fazem um barulho danado, mas não assustam ninguém; são esperados. Mas com a enorme diferença de que não há beleza, muito pelo contrário. Ao invés de encantamento, uma sensação de asco.

Essa é mais ou menos a imagem que ficou em boa parte do país depois da chamada Lista de Fachin, que autorizou investigação contra 75 nomes da elite política brasileira. Se alguma coisa fez barulho e também gerou algum susto foram os vídeos dos depoimentos de ex-executivos da Odebrecht, em especial o de Marcelo Odebrecht.

O que surpreende na fala de Marcelo é a riqueza de detalhe sobre os encontros que tinha com (perdoem o termo) a nata política da nação. Ditava decretos. Corrigia ministro da Fazenda. Discutia valores com presidentes. Algo de novo nesses fatos? Não, a não ser a certeza de que essa conduta era a regra, não a exceção.

Também surpreende os valores. Milhões são citados como se trocado fossem. A expectativa de Fulano é arrecadar R$ 100 milhões – informou na delação. Beltrano pediu R$ 10 milhões, mas “só” foram liberados 7 ou 8. Mais ou menos como quem diz que queria chegar cedo no trabalho e, por isso, pretendia pegar o ônibus das 6h30; mas não deu, só pegou o ônibus das 7h.

Uma trivialidade.

Vendo os vídeos, vem à mente Brasil, a canção de Cazuza. Em determinado trecho, o poeta apela: “Brasil / Mostra tua cara / Quero ver quem paga / Pra gente ficar assim”.

A cara que encontramos nas delações é a da armação ilimitada, dos acordos (nem tão) por baixo dos panos, das maquinações com roubalheira partilhada entre uns de sempre. E aí ficamos sabendo o que já sabíamos mas não de forma tão crua e dura: nós é que pagamos pra ficar assim. Assim sem segurança, assim sem saúde, assim sem educação de qualidade e assim cada vez mais sem perspectivas.

Percebemos que quase ninguém da tal elite política está fora. É a estranha democratização... da roubalheira. Quase duas dezenas de partidos diferentes envolvidos. Tem pai e filho. Tem gente do norte e do sul. Tem esquerda e direita. Soa quase desprestígio não estar na lista, não ter um diálogo com Marcelo Odebrecht, não tirar um naco do cofre da viúva.

É como se valesse outro trecho da canção, na ironia fina de Cazuza: “Não me subornaram / Será que é o meu fim?

Surpreende nas falas de Marcelo Odebrecht a facilidade com que conta tudo, em detalhes, tranquilamente, sem sobressalto ou rubor. Tudo normal.

Será igualmente surpreendente se isso tudo não indignar. E, assim, não produzir efeito algum na cidadania.