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Velhos partidos estão dando lugar à política-movimento? Vale conferir


Emmanuel Macron: o ex sem-partido vira lider do movimento Em Marca e está no segundo turno na França

 

Os casos estão aí: Grécia 2015, Espanha 2016, Estados Unidos 2016 e França 2017. Do nada (ou quase), surge um candidato que surpreende. Sem partido, ou com partidos de pouca expressão, alcança desempenho surpreendente. E passa a governar seu país ou a ter papel fundamental na política da Nação.

O movimento vem chamando a atenção para a acentuada perda de relevância dos partidos tradicionais, muitas vezes com a quebra de estruturas bipartidárias que duraram décadas. Há casos onde alguns desses partidos tradicionais foram tragados pelo rechaço do eleitor, que busca novas alternativas. O caso da eleição para a presidência da França, ontem, é bem emblemático.

Desde a fundação da 5ª República, no final da década de 1950, as disputas pelo governo da França sempre tinham como referências os partidos de centro-esquerda/esquerda (Socialistas) e centro-direita (Republicanos). Este ano, os candidatos desses grupos nem chegaram perto do segundo turno, que será disputado por Emmanuel Macron, do movimento centrista Em Marcha!, e Marine Le Pen, da ultradireitista Frente Nacional.

O resultado da França diz algo que acontece lá e em boa parte do mundo. E diz, sobretudo, do desencanto do cidadão com as antigas fórmulas e estruturas. No caso dos partidos, estão sendo substituídos por verdadeiros movimentos que se ajustam às demandas do momento.

A Grécia já tinha apontado o caminho em 2015, quando o Syriza chegou ao poder. Vale lembrar, apenas três anos antes, o partido de discurso radical tinha conseguiu 50 das 300 cadeiras do parlamento. Em 2015, em meio a uma crise econômica sem precedentes, foi o depositário das esperanças de mudança, chegou a 149 cadeiras e passou a governar.

Na Espanha, dois novos partidos – o Podemos e o Ciudadanos – romperam o bipartidarismo onde PP e PSOE dividiam o eleitorado desde a redemocratização, há 40 anos. E há ainda o caso dos Estados Unidos, onde Trump virou as costas para a elite de seu partido, venceu as primárias e, depois, a eleição presidencial.

Esses episódios apontam para um caminho que pode ser mais consistente do que aparenta. Pode indicar que os partidos tradicionais já não se sustentam só em cima de um discurso ideológico. É preciso se transformar em movimento, entendendo-se movimento como uma mobilização em cima de temas mais pontuais. Se quiserem ser ideológicos, como são os dois finalistas da disputa francesa, precisam ser mais que isso.

Marine Le Pen é a cara da França que torce o nariz para os imigrantes e para a União Europeia. Macron é a tradução de uma França que reprova a gestão socialista de François Hollande e não deseja dar as costas ao europeísmo, ao mesmo tempo que teme um governo radical de Le Pen. Os dois que chegam ao segundo turno abraçam questões muitos pontuais, atuais, imediatas. E, assim, ganham a feição de movimento.

O caso de Macron é especialmente revelador dessa faceta. Ele foi ministro de Hollande. Mas deixou o governo e resolveu criar seu próprio partido, o Em Marcha! – assim mesmo, com  exclamação. O próprio nome já diz muito da ideia de movimento. E Macron, que há bem pouco sequer era levado em conta na corrida presidencial, começa a campanha para o segundo turno como aquele que mais acende as esperanças dos franceses.

Não deixa de ser um recado e tanto para outros países, inclusive um situado nos trópicos americanos. Aqui a crise gerou desesperança geral. E quem conseguir alimentar mais esperança, pode ser o depositário dos votos de milhões de desesperançados brasileiros.