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Niède tem razão: homem chegou às Américas bem antes do imaginado

Niède Guidon e a Serra da Capivara: descobertas na Califórnia fortalecem as pesquisas feitas no sertão do Piauí

 

Uma boa parte do mundo científico sempre guardou certa cautela diante das conclusões das pesquisa da arqueóloga Niède Guidon na Serra da Capivara. Muito natural: ao encontrar vestígios da passagem do homem pelo sertão piauiense há dezenas de milhares de anos (há restos de fogueiras e instrumentos de pedra deixados há quase 50 mil anos), Niède colocou de cabeça para baixo as principais teorias sobre a ocupação do continente americano.

Pois os céticos podem ter que se render às descobertas da Capivara: cientistas encontraram na Califórnia (próximo a San Diego) um sítio arqueológico com vestígios humanos que remontam há 130 mil anos. Uma descoberta que também coloca de cabeça para baixo as antigas teorias, que eram vistas quase como leis. E, de quebra, podem dar toda razão às conclusões de Niède.

O achado que dá suporte às conclusões de Niède Guidon foi objeto de artigo publicado na Nature, a mais prestigiosa revista científica do planeta. Nesse artigo, um bem documento estudo aponta registros de rudimentares ferramentas de pedra utilizadas por humanos para o abate de um mastodonte. Que os primeiros homens americanos caçavam grandes animais, não é novidade. Mas a data surpreende.

Até agora, as teorias mais aceitas apontavam para a chegada do homem às Américas há 15 mil anos – e era isso que deixava as descobertas de Niède em xeque. Agora, essa data recua para 130 mil anos. E pode dizer simplesmente que Niède tem razão. Porque essa descoberta leva à possibilidade muito provável de que os primeiros americanos (nômades) saíram pelo continente. E chegaram à América do Sul, onde os registros mais antigos estão precisamente na Serra da Capivara.

Por muito tempo, as contribuições de Niède foram consideradas ousadas – um eufemismo para descrença. E nem mesmo testes que confirmavam a datação de restos de fogueira com quase 50 mil anos não anulavam o descrédito de muitos. Niède também apresentava pedras toscas talhadas como instrumentos feitos pelo homem. Mas nem isso era muito levado em conta: muitos dos seus pares não se mostravam convencidos de que as pedras são mesmo instrumentos feitos por pessoas.

Pois bem: mostra-se agora que há razoável semelhança entre essas pedras e instrumentos encontrados mais recentemente no sítio da Califórnia. Mais um ponto para os achados no sertão piauiense. Mais um ponto para Niède Guidon.