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Lava Jato x Mãos Limpas: o que vem depois?


Pastore e Cristina Pinotti: livro traz o debate  sobre a corrupção nas obras públicas

 

O surgimento da Operação Lava Jato traz uma série de discussões. Uns enxergam a apuração dos escândalos de corrupção como simples perseguição. Outros acham que é a salvação do país. Outros acham até que a coisa é boa, mas vai esbarrar nos esquemas de sempre, engolida por interesses maiores. Nos argumentos desses últimos, a italiana Operação Mãos Limpas seria a prova: destapou um mundo de escândalos e terminou preservando os corruptos, já que estes tinham as rédeas do poder.

Não são poucos os que temem que a Lava Jato dê mais em punição dos investigadores que dos investigados. Mas há quem pense diferente, e pensa diferente precisamente por conhecer as duas realidades – a italiana das Mãos Limpas e a brasileira da Lava Jato. Entre elas está Maria Cristina Pinotti, economista que se debruça no estudo da corrupção e seu impacto na economia.

Maria Cristina é co-autora do livro Infraestrutura – Eficiência e Ética, organizado por Afonso Celso Pastore e que chegou às livrarias na semana passada. Seu artigo trata do problema da corrupção no setor de infraestrutura, que mostrou-se especialmente envolvido na sangria de dinheiro público revelada pela Lava Jato.

Mas nas conversas com os jornalistas, a economista foi especialmente otimista quanto ao legado da Lava Jato. E aqui é preciso rememorar: na Itália, a Mãos Limpas revelou o envolvimento de quase todos os partidos com os esquemas de corrupção. Mas, quando os italianos esperavam uma limpeza geral na política, os próprios políticos se articularam e construíram um enorme guarda-chuva de proteção, com a aprovação de novas leis.

Maria Cristina Pinotti acha que podemos esperar destino melhor para a Lava Jato. Ela destaca o cenário institucional no Brasil muito mais favorável. Ela aponta especialmente a ampla mobilização popular a favor da Lava Jato – vale lembrar, na Itália a ormetà (lei do silencia da máfia) calou muita gente – e o melhor funcionamento das instituições, aqui.

No Brasil, o Judiciário vem mostrando um empenho nas investigações muito maior que o verificado na Itália. Também vale destacar o Ministério Público e a Polícia Federal, com níveis de autonomia festejáveis. Além disso, a economista destaca um componente importante: a liberdade de imprensa. Na Itália o setor de comunicação tem uma ligação quase umbilical com a política e com o Estado. E isso faz uma enorme diferença.

O fortalecimento das instituições é fundamental para que o caminho aberto agora possa ser percorrido com mais desenvoltura no futuro. E para que o destino da Lava Jato não seja o mesmo da Operação Mãos Limpas.