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Temer tenta sair do caos vendendo ‘normalidade’

Michel Temer: vendendo normalidade e a certeza de aprovação das reformas em tramitação no Congresso

 

Os interlocutores do presidente Michel Temer, nesses últimos dias, descobrem um homem com duas posições. A primeira: determinado a resistir; não quer entregar o cargo sem lutar. A segunda: convicto de que o país não pode parar e que, apesar da crise, tudo pode seguir tranquilamente em normalidade. A firmeza do presidente desconcerta até experientes interlocutores, como Fernando Henrique e José Sarney.

Uma faceta desse Temer empenhado em vender normalidade pode ser vista ontem, em São Paulo. Lá, falou para investidores, os chamados investidores da economia real: aqueles que colocam o dinheiro em atividades produtivas, não apenas nas especulações do mercado financeiro.

Ao falar para um auditório lotado de investidores nacionais e internacionais, o presidente sequer citou a crise política. Falou convicto da aprovação das reformas tão caras ao mercado, a Trabalhista e a da Previdência. E disse que não tem plano B: é reforma ou reforma. E que elas virão.

Desdenhando da crise política e do aperto que passa, o presidente afirmou que vai concluir o mandato. E que entregará ao sucessor uma “casa em ordem”.

Para mostrar que a normalidade é real e que o os investidores podem acreditar, levou para o evento a nata do ministério e até o presidente da Câmara. Rodrigo Maia. Maia, aliás, fez um discurso empenhadíssimo: disse que a agenda que leva como presidente da Câmara é a agenda do mercado. Mais direto impossível.

De alguma forma, Temer reafirmou metas e mostrou força política. Além de Maia e ministros, estavam no evento o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o prefeito paulistano, João Doria. Quanto aos investidores, gostaram do que ouviram. Mas não compram fácil: sabem que há uma crise política gigantesca, ainda não controlada.

 

Os detalhes negam a normalidade

As coisas se revelam nos detalhes. E, apesar de todo o esforço para mostrar normalidade, os detalhes do evento com investidores, em São Paulo, deixam claro que a situação não é normal.

Em um cerimonial clássico, a mesa de um evento é composta a partir do mais importante. No caso, o mais importante era o presidente Temer. A chamada pode ser ao contrário – o mais importante fica por último – quando a apresentação ganha estilo espetáculo, de entrada no auditório. Foi essa a opção escolhida para o evento de ontem.

Mas Temer não entrou só. Quando foi chamado ao palco e, surpresa, entrou com Geraldo Alckmin. O gesto é muito mais que o aval tucano às ações do governo. Soa mesmo como uma estratégia para reduzir o risco do presidente ouvir apupos.

Essa preocupação deixa bem claro: a situação não é normal. Não é mesmo.