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Mesmo condenando, julgamento do TSE pode não mudar nada

Tribunal Superior Eleitoral: julgamento histórico que pode ter efeito apenas pontual na política do Brasil

 

O julgamento que começa nesta terça-feira, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deve confirmar o que a Lava Jato revelou com sobras: o jogo político no Brasil é marcado pelo abuso do poder econômico. Um jogo subeterrâneo onde vale mais o que se faz às escondidas. E que prevalece também no governo do eleito.

Mas que ninguém se arvore de lançar a primeira pedra: todos têm telhado de livro. Os vencedores. E os derrotados.

Curioso é que o processo que pede a cassação da chapa Dilma-Temer foi movido pelo PSDB do senador afastado Aécio Neves. Começou como uma espécie de birra, como se para marcar posição e reafirmar as estripulias que a Lava Jato apenas começava a mostrar. Foi até meio ridicularizado. Pois bem: Aécio, se vencido tivesse, poderia perder o mandato sob a mesma acusação.

É aí onde a Lava Jato revela a extensão da relação entre dinheiro e política, no Brasil: os problemas estavam nas chapas Dilma-Temer, Aécio-Aloysio Nunes, Eduardo-Marina e até nos Pastores Everaldo da vida. Mostra, sobretudo, o tamanho da cumplicidade e de que forma é construída: na pura e deslavada troca de interesses. Corrupção.

Parece óbvio que o TSE vai condenar a chapa Dilma-Temer. Nem mesmo dentro do governo se projeta resultado diferente. No sonho do Planalto, há duas possibilidades de comemoração: um pedido de vista que deixe o processo para dia de São Nunca; ou a condenação sem que o vice seja responsabilizado pelos atos ilegais fartamente documentados.

Com todas as letras, o julgamento repetirá o que se sabe e que as investigações atestaram de forma gritante: o sistema político brasileiro é muito ruim. É caro. Não gera compromisso entre representante e representado. Dificulta a governabilidade. Favorece o abuso do poder econômico. E estimula a corrupção. Resumo: é muito ruim para o Brasil e os brasileiros. E é preciso mudar.

E aí vem a pergunta: o que efetivamente mudará após esse julgamento?

Mais uma vez vamos ao lugar comum: seria razoável uma mudança profunda no sistema. Mas os sinais emitidos pelo Congresso não apontam nessa direção. Cultivando o que mais sabem fazer – os interesses próprios –, os congressistas tendem a se apegar ao instinto de sobrevivência e manter tudo como está. Se mudarem, mudarão vírgulas; um aceno para a plateia.

E, assim, a política seguirá exatamente como está.

Olhando bem os possíveis desfechos do julgamento no TSE, talvez até resulte na mudança de um presidente, caso Michel Temer seja cassado junto com Dilma Rousseff. Certamente não é pouca coisa na vida atual do país. Mas será nada na política nacional – que seguirá igual, com as mesmas práticas, sob o mesmo guarda chuva de um sistema que não funciona.